Nem de longe o conjunto de características preferidas pela mídia para designar o típico terrorista.
Sensacionalismo melodramático
No dia seguinte aos atentados, morreu a famosa cantora Amy Winehouse, possivelmente de overdose, e a mídia encontrou o tema principal do fim de semana. Muito mais cômodo e sensacionalista tratar da morte de uma grande cantora do que se aventurar no espinhoso terreno do terrorismo... cristão.
Manchetes de jornal por todo o país, online e offline, lembravam do atentado cometido pelo norueguês alto e loiro, mas escondiam e relegavam às letras miúdas e rodapés suas motivações: ódio visceral ao islamismo e fundamentalismo cristão militante. O termo “terrorista cristão” não foi empregado em momento algum, muito menos virou uma única expressão, como acontece com o termo “terrorismo islâmico”. Ora, para a mídia, a palavra “terrorismo” precisa de um qualificado e não faz sentido se este não for “islâmico”. O termo, então, foi pouco usado.
No Jornal Nacional do sábado (23/7), o primeiro bloco, de 10 minutos, foi inteiramente dedicado à morte de Amy Winehouse, enquanto seis minutos do segundo bloco foram dedicados aos atentados/massacres na Noruega. No terceiro bloco, mais 12 longos minutos de Amy Winehouse. Vinte e dois minutos de jornal para Amy Winehoyse, seis minutos para a crise na Noruega. No Fantástico do domingo, também da Rede Globo, menos de quatro minutos dedicados aos atentados na Noruega – mas com o mesmo melodrama típico dos domingos à noite, em que a notícia dá lugar ao sensacionalismo melodramático de novelas mexicanas.
Suaviza-se a realidade
O entretenimento venceu o jornalismo. Ou talvez as tradicionais concepções de jornalismo estejam ultrapassadas. Fosse islâmico, baixinho, barbudo e com semblante do Oriente Médio, qual seria a reação do jornalismo mundial? Como se daria a cobertura de mais um atentado de um discípulo de Bin Laden (que, mesmo morto, parece continuar a comandar uma rede internacional mais poderosa que muitos Estados, na visão sempre sensacionalista da mídia)?
O jornalismo foi substituído por um misto de hipocrisia e melodrama. Um terrorista cristão não serve aos propósitos midiáticos. Não é um inimigo fácil e se parece demais com muitos articulistas de grande revista semanal ou de diários conceituados.
A extrema-direita fundamentalista se parece, não importa o país, e o Brasil vem sendo vítima de uma onda fundamentalista cristã que busca perseguir a comunidade LGBT tanto através da via política (bancada evangélica, tentativas de deslegitimar o Judiciário e de vetar qualquer lei contra a homofobia), quanto através da violência nas ruas mesmo contra um pai que abraça seu filho e são “confundidos” com um casal gay, como se a possibilidade de que fossem efetivamente gays pudesse mudar o sentido ou o significado da violência.
Extrema-direita cristã, fundamentalista, se vê na Fox News, canal de grande audiência dos EUA. A mesma ideologia se nota nos programas evangélicos das madrugadas (e até dos horários nobres) de muitas redes de TV brasileiras ou em revistas e jornais de grande circulação. Ou seja, é incômodo classificar os atos terroristas de Andres Breivik como “terrorismo cristão”.
Para escapar do “problema”, foca-se em outros assuntos e suaviza-se a realidade. Maior foco na reação do primeiro-ministro norueguês, maior foco no salvamento das vítimas de Utoya e mesmo na morte de Amy Winehouse, a melhor desculpa que poderia ter caído no colo dos tubarões da mídia neste momento.
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Artigo publicado originalmente na edição 652 do Observatório da Imprensa
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