Contra argumentos não há fatos

16 de setembro de 2013


As novas tecnologias criaram novas possibilidades na comunicação, organizando um novo contexto cultural que mal começamos a perceber. As redes virtuais são produtoras de novos mundos, com novas relações e novas personagens, atores estreantes em diversas esferas da organização social, sempre esferas de comunicação e de poder. A chamada blogosfera tem provocado uma nova configuração na disponibilidade de informações, causando crises na chamada imprensa oficial. Os conflitos se sucedem entre as novas e antigas esferas, com novos atores ameaçando antigos. Jogo de poder que é jogo de informação e jogo de linguagem.
O livro de Daniel Lemos, “Discurso e argumentação no blog “Fatos e Dados” da Petrobrás”, se apresenta como um dos mais preciosos estudos sobre todas essas relações, em que o argumento se apresenta como uma espécie de agente principal. E se o discurso é uma violência exercida contra as coisas, como diz Foucault, o argumento, trama central em todo discurso, se estabelece com uma autonomia que dispensa a própria coisa. O fato, se é que isso existe, está à disposição dos agentes em conflito, os quais argumentam com toda força dos recursos disponíveis, estabelecendo uma imagética comparável às justas medievais nessas novas roupagens tecnológicas.
O conflito se estabelece a partir de um blog criado pela Petrobrás, “Fatos e Dados”, cujo objetivo é exatamente contrapor à imprensa oficial um outro discurso. Criado como estratégia de encontrar um espaço de se defender da força da mídia, jornais e televisão, especialmente a Rede Globo, que participam da instalação de uma CPI contra a Petrobrás, no ano de 2009. Aproximava-se o ano eleitoral de 2010 e a oposição ao governo precisava construir fatos e a agenda da mídia caminha quase que constantemente nessa direção.
Esse livro é resultado da tese de doutorado em linguística de Daniel Lemos. O poder da linguagem é colocado no âmbito dos novos suportes virtuais, e o caso específico do blog da Petrobrás é estudado como fenômeno que acena para novas relações no campo da informação, em que a cibercultura pode acontecer como lugar de quebra de monopólios, portanto de oportunidade de maior democracia.
“Os blogs são, talvez, a primeira grande experiência daquilo que Lévy (1999) qualificou como revolução promovida pelo ciberespaço, uma vez que liberta o usuário da Internet para que, dispensando intermediários, possa disseminar seu próprio fluxo de informações (seus textos, suas músicas), construindo seu mundo virtual, os produtos de seu espírito, estabelecendo relações sociais e constituindo uma realidade social sob o seu absoluto critério individual” (Lemos, Daniel. Discurso e argumentação no blog “Fatos e dados” da Petrobras. Feira de Santana, BA: Curviana, 2013, p. 269).
Como comunicação de crise, o blog surge como suporte auxiliar para a construção de argumentos da Petrobras e para que a função dialógica da linguagem escape das tentativas de rarefação e ocultação por parte de uma espécie de monopólio da informação. Desse modo, podemos perceber que aquilo que comumente chamamos de fato é o produto de uma estratégia de noticiamento e de argumentação que prevalece sobre outras. O fato é uma criação da linguagem, um argumento que deu certo e foi capaz de criar consenso para o seu público.
Os jogos políticos se sucedem e as estratégias discursivas se recompõem ciclicamente. Novamente, estamos às vésperas de um ano eleitoral e já podemos perceber nas entrelinhas da informação o conflito causado pelas disputas que se avizinham. Não existe neutralidade política nem neutralidade da informação. A CPI da Petrobras em 2009 não conseguiu atingir os seus objetivos políticos, e o blog “Fatos e Dados”, junto com outros atores, foi um dos responsáveis por isso. Em menos de seis meses atingiu a marca histórica de dois milhões de visitantes. Em sua querela argumentativa estabeleceu uma certa vitória sobre os seus oponentes, demonstrando a força advinda do ciberespaço, a qual se desenha cada vez com mais vigor.
O livro de Daniel Lemos nos faz ficar atentos a todos esses fenômenos e a analisar as estratégias discursivas que estarão em vigor daqui por diante. Os fatos, em certo sentido, são criaturas do argumento. O jogo político é um jogo de interesses, lugar em que a maioria quase nunca é representada condignamente. Não podemos ser ingênuos diante da pretensão de neutralidade e objetividade da informação. Os discursos são construções poderosas e perigosas, deixando-nos sempre com a impressão de que contra argumentos não há fatos.
*Marcos Monteiro é assessor de pesquisa do CEPESC. Mestre em Filosofia, faz parte do colégio pastoral da Comunidade de Jesus em Feira de Santana, BA e do grupo de pastores da Primeira Igreja Batista em Bultrins, Olinda, PE. Também faz parte da diretoria da Aliança de Batistas do Brasil e é membro da Fraternidade Teológica Latino-Americana do Brasil.
CEPESC – Centro de Pesquisa, Estudos e Serviço Cristão. E-mail cepesc@bol.com.br, site www.cepesc.com.

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