Moradores da Favela do Moinho estavam sendo convencidos a deixar a área

18 de setembro de 2012

A matéria de O Estadão merece ser lida com atenção. Atenção às entrelinhas.  Três coisas se destacam de início: três focos de incêndio desconsiderados pela polícia mas confirmados pelos bombeiros, a afirmativa do que o laudo pericial será capaz de dizer e o fato de que 392 famílias desabrigadas pelo incêndio já tinham acertado a saída da área.

O mais cruel: o título da matéria no jornal destaca a interdição do viaduto e esquece o drama humano do morto, feridos e desabrigados.
Ainda assim as entrelinhas apontam a tentativa dos jornalistas em fazer o seu trabalho.

No Estadão

Um incêndio na manhã desta segunda-feira, 17, deixou um morto, destruiu 80 barracos na Favela do Moinho, na região central de São Paulo, e bloqueou o Viaduto Orlando Murgel durante todo o dia. É a 34.ª ocorrência de fogo em favelas neste ano na capital e o segundo caso no mesmo local em menos de nove meses. De acordo a Polícia Civil, o fogo teria começado durante uma briga entre um travesti e seu companheiro.

Uma vistoria no viaduto detectou desprendimento de placas de concreto causado pelo calor das chamas. Segundo a Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras (Siurb), só uma nova avaliação, que deverá ser feita nesta terça-feira, 18, vai determinar se o viaduto será liberado para o trânsito.

A via liga as Avenidas Rudge e Rio Branco e é uma das principais ligações entre o centro e a zona norte da cidade. Para evitar mais transtornos no trânsito, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) bloqueou também a alça da Ponte da Casa Verde, na Marginal do Tietê, usada por quem segue da via expressa para o viaduto - ela continuava bloqueada para o tráfego na noite desta segunda

Também por causa dos danos na estrutura do viaduto, o itinerário de 17 linhas de ônibus foi alterado e as Linhas 7-Rubi e 8-Diamante da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) ficaram com trechos paralisados e só voltaram à operação, em velocidade reduzida, após as 17 horas desta terça.

Incêndio. Os bombeiros foram chamados às 7h08 e controlaram o fogo 1h40 depois. Segundo a polícia, Fidélis Melo de Jesus, de 37 anos, conhecido como Eliete, foi responsável por provocar o incêndio.

O travesti teria brigado com seu companheiro, Damião de Melo, de 38 anos. Durante a discussão, ela pegou uma camiseta, acendeu com isqueiro, transformou a mangueira do botijão de gás em um maçarico e ateou fogo ao namorado. "Há depoimentos de duas testemunhas que disseram ter ouvido Damião gritar que a companheira havia ateado fogo nele", afirmou a delegada Aline Martins Gonçalves, do 77.º DP (Santa Cecília).

Vizinhos arrombaram a porta do barraco para tentar salvá-lo. Nesse momento, Eliete fugiu. Melo ficou dentro do barraco, que desabou em seguida. Exames devem confirmar que é dele o corpo carbonizado.

O travesti procurou uma ambulância e foi levada até um hospital na Barra Funda, onde foi detida. Na delegacia, Eliete disse que o companheiro tentou matá-la, motivado por "ciúme doentio". Para a polícia, o travesti descreveu em detalhes a ação que desencadeou. Ela está presa e foi autuada por provocar incêndio e homicídio. Seu companheiro tinha passagens por roubo e furto e estava em liberdade provisória desde junho. Ambos eram usuários de crack.

Dúvida. Segundo os bombeiros, havia três focos de incêndio, distantes cerca de 50 metros um do outro, formando uma figura parecida com um triângulo na área de 2.100 metros quadrados afetada pelo fogo. Coordenadora da Associação de Moradores da Favela do Moinho, Neide Aparecida Campos questiona a versão da polícia e confirma a dos bombeiros. Ela disse que moradores a procuraram afirmando que havia três lugares pegando fogo na favela, assim que começou o incêndio.

Segundo o delegado titular do 77.º DP, Marcos Casseb, apenas a perícia poderá apontar se havia ou não outros focos. Para ele, o fogo teve início com a discussão entre o travesti e o namorado.

Peritos ouvidos pelo Estado, porém, afirmaram que o laudo poderá ser inconclusivo quanto ao número de focos do incêndio. O texto final deverá apontar características de "corpo ígneo com material de fácil combustão" e presença de "acelerantes" (material inflamável).

Convencimento. O prefeito Gilberto Kassab (PSD) afirmou na noite desta segunda que as famílias que continuavam vivendo na favela depois do último incêndio, em dezembro do ano passado, estavam sendo convencidas a sair de lá e aceitar o auxílio-aluguel - 392 famílias que perderam a casa no episódio já haviam aceitado.

Kassab afirmou que o benefício continuará sendo oferecido às pessoas. "Não temos o direito de tirá-las à força", diz. Segundo o prefeito, os moradores só serão retirados se houver risco iminente, como no caso de a estrutura do viaduto sobre a favela tiver sido abalada.

O destino da favela, porém, é mesmo desaparecer. "A área é perigosa, contaminada, tem um transporte de velocidade que traz risco. Mas todos vão continuar morando na região (com auxílio-aluguel e, depois, unidades habitacionais próprias)", diz o prefeito.

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