Sobre "acertos de contas com o tráfico"

28 de dezembro de 2012

Mais uma morte na periferia. A que li hoje ocorreu no bairro de Novo Horizonte - lugar que parte de nossa imprensa insiste em chamar de Favela do Japão.
Mais uma morte que será, por fim, esquecida. Na nossa imprensa policial ninguém se interessa por investigar nada, por conhecer os mortos, por saber as razões dos vivos.
Esse jornalismo se resume a uma foto do corpo e a repercussão da explicação policial. Sequer se questiona a versão policial: em cem por cento dos casos os policiais dão uma declaração supondo que a morte foi motivada por acerto de contas com o tráfico, visto que cem por cento das vítimas teriam envolvimento com drogas.
Desse modo, a polícia se abstém de investigar porque já conta o morto como viciado morto por traficante.
A imprensa não se importa com isso. Quando muito, cita-lhe o nome. Mas é um nome sem história, sem família, sem queridos. Sem o direito de que alguém se habilite a, de verdade, querer saber a história real de sua vida e de sua morte.
Chamarei de suposto jornalismo esse que ouve a polícia, assume uma versão padronizada para todo crime na periferia, cita o nome da vítima, publica-lhe a foto e fica por isso mesmo.
Enquanto isso, nem imprensa nem polícia querem ver coisas óbvias, como a nítida e deliberada ação de grupos de extermínio. Não se quer investigar por medo de que se venha a ser vítima ou porque, no fundo, se aplaude sua ação.
Seja em Natal, seja em Fortaleza, seja em qualquer outra cidade, esse modus operandi se repete: grupo que mata, polícia que não investiga, imprensa que finge que não vê.
Quero saber quem é a vítima, o que ele fazia, o que ele queria do futuro. Queria conhecer os motivos pelos quais alguém poderia querer que morresse. Queria ver uma suite para cada caso de morte nessas circunstâncias: como está a investigação? O que se descobriu?
Não verei nada disso. A morte se acaba no jornal do dia seguinte e ninguém avança sua investigação.
A não ser que, por acidente, polícia ou grupo de extermínio dêem cabo da vida de alguém que não more na Favela do Japão e, sim, em Ponta Negra ou Candelária. Essas são pessoas que "têm o direito" de serem tratadas como gente pela imprensa e pela polícia.

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