Ideli só esqueceu de "combinar com os russos"

23 de janeiro de 2013

No Brasil 247

A declaração da ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, de que o Planalto "não tem preferência" por nenhum dos partidos que disputam as presidências do Senado e da Câmara mostra o tamanho da saia justa enfrentada pelo governo; embora este nos bastidores pelo candidato do PMDB, Henrique Alves, o governo quer manter o PSB na base governista; será que a estratégia dará certo?

A expressão do legendário jogador Mané Garrincha cabe como uma luva n a tentativa do Governo em manter a tranquilidade entre o PSB e o PMDB. A declaração da ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, de que o Planalto "não tem preferência" por nenhum dos partidos que disputam as presidências do Senado e da Câmara Federal mostra o tamanho da saia justa. Se no Senado Renan Calheiros (PMDB) tem tudo para ganhar o cargo com folga, a situação na Câmara, onde o peemedebista Henrique Eduardo Alves (PMDB) enfrenta Júlio Delgado (PSB), é mais delicada. Hoje o PT tenta acalmar o PMDB e ao mesmo tempo segurar o PSB na base governista, o que justifica a declaração pela não preferência entre os candidatos das duas legendas, muito embora o PT e a presidente Dilma venham atuando para eleger o postulante do PMDB.

De acordo com o portal G1, em um encontro com jornalistas na manhã desta quarta-feira (23), a ministra teria dito que “A deliberação de presidência e Mesa é uma deliberação autônoma, soberana do Congresso Nacional, e nós apenas estamos acompanhando e respeitaremos como sempre a deliberação soberana dos deputados e senadores. O Planalto não tem preferência, porque a preferência nossa é que eles escolham e que a gente possa continuar tendo esta relação produtiva, benéfica para o país, que nós tivemos ao longo desses dois anos”. A referência diz respeito ao rodízio acordado entre PT e PMDB para alternarem o comando das duas casas legislativas a cada biênio, vez que agora caberia aos peemedebistas.

O que ninguém esperava é que a candidatura do socialista Júlio Delgado, que lançou-se inicialmente na disputa pela presidência da Câmara sem o apoio da direção da legenda, acabasse por decolar. Hoje, o PSB conta com as denúncias de favorecimento ilícito na liberação de emendas que pesam contra o candidato do PMDB e, também, com a disputa entre o PSDB e PSD por espaços na mesa diretora para levar a disputa ao segundo turno. Esta briga pode levar o PSDB a lançar uma candidatura própria, tirando votos do pemedebista e empurrando a disputa para uma segunda etapa, onde a candidatura do socialista passaria a ter condições reais de ameaçar a postulação do PMDB em acumular a presidência das duas casas.

No meio desta seara está o governador de Pernambuco e presidente nacional do PSB, Eduardo Campos. Pré-candidato à Presidência da República em 2014, Campos sabe que o controle da Câmara forçaria o PT a manter uma relação mais próxima com a legenda socialista, ampliando o cacife político e a visibilidade do partido. Além disto, uma vitória de Delgado implicaria em uma espécie de freio de arrumação na voracidade do PMDB por cargos e maiores espaços na administração federal.

É diante desta situação que vem a declaração da ministra em não apoiar nenhum dos partidos na briga pela Câmara. Apesar disto, o Governo vem trabalhando em prol do candidato do PMDB. Por sua vez, Campos vem atuando veladamente para viabilizar a postulação de Delgado, tendo declarado que se “fosse deputado votaria nele (Delgado)”. Esperto, Campos sabe que a manutenção da aliança entre o seu partido e o PT é fundamental às suas pretensões. Caso rompa em definitivo com o aliado, ele poderá ver minguar os recursos federais que nos últimos anos impulsionaram a economia pernambucana acima da média nacional. Faltando mais de um ano para as eleições 2014, uma situação assim prejudicaria a imagem de bom gestor construída pelo socialista. Neste ponto, o governador tem optado por afirmar reiteradamente que o PSB permanece na base aliada e apoiando o governo da presidente Dilma Rousseff (PT), pelo menos ao longo deste exercício.

Enquanto isto, o Governo tenta não se indispor diretamente com nenhuma das legendas. De um lado o PMDB possui a maior bancada no Congresso e, ainda, tem Michel Temer como vice-presidente. Já o PSB saiu como o partido mais fortalecido nas últimas eleições e é considerado fundamental ao garantir apoio nos projetos de interesse do governo, a despeito das intenções eleitorais mais à frente. Diante deste caldeirão político, o governo procura não melindrar nenhum dos aliados neste momento.

Diante deste cenário, não é difícil prever que o assunto constará da pauta da reunião que a presidente Dilma deverá ter com Lula nesta sexta-feira, quando ela deverá pedir auxílio no sentido de acalmar a tensão cada vez mais evidente entre as duas legendas.

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