Que raio de cultura política é essa?

1 de janeiro de 2013

Humberto Dantas
Um cientista político, mesmo de férias, quando encontra os amigos é chamado ao debate. De férias em Natal-RN, terra de meu avô e de minha esposa, fui desafiado pelo livro de João Faustino. Faustino é político potiguar, de origem pernambucana. Esteve no governo FHC e aportou na gestão paulista de José Serra com status de secretário. É tucano, apesar de a legenda não ter expressão no Rio Grande do Norte. Seu principal interlocutor parece ser o senador paulista Aloysio Nunes Ferreira, que assina a apresentação do livro em tom exaltado. Comportamento típico em nossa política, a mais pura cordialidade “buarqueana”. Em 2011 Faustino foi envolvido num grande escândalo associado à tentativa de implantação da Inspeção Veicular, de inspiração paulistana, no estado nordestino. Diversas lideranças políticas são acusadas de se beneficiarem de tal situação. Preso, o autor quase faleceu no cárcere vítima de problemas cardíacos que carrega historicamente. Em Natal, parte da imprensa chegou a questionar seu estado de saúde, assunto tratado de forma enfática e defensiva na obra. A despeito de tal condição, busquei no livro explicações detalhadas sobre o processo que culminou em sua detenção. Esqueça, a obra é política demais para isso! O volume foi lançado em 2012 e tem 264 páginas. Fosse a letra convencional e a diagramação ambientalmente responsável teríamos uma obra de menos de 100 páginas. Está numa importante gôndola da mais relevante livraria do principal shopping de Natal. O tomei emprestado de uma prima. O texto é ruim, uma boa revisão irritaria menos o leitor. A letra “S”, por exemplo, abandona alguns plurais, o que faz com que sintamos que o livro foi escrito pelo cérebro maltratado de um homem que tem o coração machucado. Faustino assina a obra, mas o texto é todo na terceira pessoa. Assim, João fala de João, o que chega a forçar uma procura pelo verdadeiro autor. A ficha, no entanto, é enfática: o livro é de Ferreira Neto, ou melhor: João Faustino Ferreira Neto. Não perca tempo tentando encontrar, também, uma editora. O título é o que mais chama a atenção: “Eu perdoo: uma reflexão sobre a nossa capacidade de perdoar”. A aparente arrogância de “perdoar” se confirma em alguns trechos do livro que mescla relatos piegas com passagens biográficas interessantes. Mas e se Faustino for mesmo inocente? O intuito maior do autor parece mais associado à tentativa de mostrar que um homem com sua biografia é inquestionável. Não devemos desconfiar daquele que se diz injustamente detido – na verdade por vezes é difícil compreender se a queixa é contra a prisão, a forma como ela ocorreu ou às acusações que lhe são dirigidas. Fácil é notar que o Ministério Público tornou-se inimigo. Ao longo das páginas sua vida vai e vem, sem linearidade cronológica, apresentando valores comuns a qualquer discurso político: família, trabalho, benfeitorias à humanidade e Deus. A mescla entre infância e vida pública lembra muito a estratégia surrada utilizada, por exemplo, no livro “O doce veneno do escorpião” de Bruna Surfistinha, que mesclava o massacre familiar com a vida de prostituta, buscando que o leitor construísse a imagem de uma vítima de sua própria vida. Assim, por exemplo, Faustino intercala o perdão à professora que o fez apagar, às lágrimas, os escritos da carteira suja que ocupava na escola, em passagem que poderia ilustrar a novela Carrossel, com o adversário político que lhe derrotou em 1986, na busca pelo governo do Estado. Chama tal eleição de honesta e limpa, mas se contradiz ao observar que Geraldo Melo utilizou um acidente com seus próprios funcionários para capitalizar votos. O que limita a lisura numa campanha? Pergunte ao autor: no livro ele é quem tem o dom de julgar e perdoar. Ao longo da narrativa o trecho que mais sensibiliza mostra o assassinato de seu pai por ordem de sua mãe e avó quando ainda era criança. Mas ao descrever os contatos que fez, na companhia dos irmãos, com os jurados do processo para lhes pedir que inocentassem as mandantes em nome do convívio familiar, Faustino escancara traço marcante de nossa cultura. Como dizia Sérgio Buarque de Holanda em “Raízes do Brasil”, a família brasileira carrega o fato de se bastar em si. Ou seja, pouco importa o crime, a presença sentimental da mãe era mais relevante. Isso parece que deu certo, pelo menos no que diz respeito à união e dedicação dos três irmãos aos estudos. Faustino virou o grande homem público que relata, seu irmão mais velho seguiu brilhante carreira na aeronáutica e o mais novo se dedicou ao comércio. E assim a obra é construída. O autor se mostra um homem de fé, que conta com orgulho a capacidade que seus religiosos prediletos têm de driblar as forças armadas com exceções. Tem a Igreja Católica ao seu lado, como se o perdão divino, em um estado laico e democrático, fosse capaz de inocentá-lo de algo que pouco nos explica. Além disso, o que não lhe falta é intimidade com homens públicos, vários dos quais ele não cita os nomes. Muitos dos acusadores e defensores não nos são apresentados. O vazio é comum: “a promotora disse estar cumprindo decisão judicial”, “escuto a frase de um respeitado companheiro político”, “o militar soubera reconhecer o absurdo cometido”. Quem são essas pessoas? O que nossos amigos e inimigos têm que a lei não possui? É isso que esperamos ao longo de toda a narrativa: defesa ou detalhes razoáveis do processo. Mas isso o autor diz que não tem, ou seja: Faustino não conhece os motivos que o levaram à cadeia. Só sabe que foi injustiçado. Como uma carreira política que revolucionou a educação no Rio Grande do Norte, criou o texto da medida provisória assinada por FHC sobre a anistia no Brasil e desafiou o presidente João Figueiredo com posição favorável às Diretas-Já pode estar envolvida em escândalos? A despeito da resposta, que nem o autor apresenta, seu livro nos remete aos mais atuais temas da política brasileira. João Faustino transforma o processo que tentou abatê-lo em mais um FLA x FLU. Na verdade, como ele mesmo cita sem essa conotação, amigos e inimigos protagonizariam, no campo da justiça do Rio Grande do Norte, um imenso ABC x América-RN - clássico estadual que tem sido comum à série B do Campeonato Brasileiro. Na série A de nossa política o PT se defende da mesma forma. Enquanto parcelas da sociedade dizem que José Dirceu, João Paulo Cunha e José Genoíno merecem arder na cadeia, e que Joaquim Barbosa é herói, os condenados se dizem injustiçados por um julgamento político. Julgamento esse que nunca poderia, segundo os petistas, ter atingido homens que lutaram contra a ditadura. Julgamento esse que não pode respingar sobre aquele que fundou o Brasil em 2003. Que homens são esses que se dizem acima da lei? Que favores devemos àqueles que foram pagos para trabalhar por nós? Por que todos se dizem injustiçados quando a lei parece aplicada? Faustino merece ser julgado? Certamente sim. Ao menos o livro não mostra nada que nos faça crer no contrário, apenas que o autor foi um bom homem. Mas isso os petistas também pensam de seus protegidos. Por fim, fica a sugestão: o autor não precisa me perdoar se for inocentado. Eu não escrevi o livro, eu apenas fiz o que se espera de uma obra: eu a li.

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