Qual o legado de Rubão?

4 de maio de 2013

Por Aparecida Fernandes
No Fala Rio Grande


Vez ou outra arrisco a leitura indiscriminada de blogs. Na maioria das vezes, guiada pela temática. Isso, porque, na verdade, prefiro mesmo ler os chamados “Blogueiros sujos”. É que os aclamados limpos geralmente são aquele “sepulcro caiado” de que nos falou Jesus Cristo em uma de suas investidas contra os fariseus.
Pois bem, voltando à temática. É convidativa a meus olhos, especialmente, quando trata dos atores políticos, alinhados à esquerda, que fizeram história em solo potiguar. Semana passada, chamou-me a atenção artigo sobre o jornalista Rubens Lemos, vulgo Rubão, que foi o primeiro candidato do Partido dos Trabalhadores a governador do RN, em 1982. Embora criança, uma menina sambuda de 9 anos, lembro-me das conversas sobre a política local, após as reuniões do Centro Sócio Pastoral da Igreja de Mãe Luiza, travadas entre Pe. Sabino Gentili e o nosso sapateiro-poeta, José Gonçalves, que também saíra candidato. Mais crescida, inteirei-me cada vez mais do movimento político, como leitora e como militante. Sobre Rubens Lemos, pai, tive oportunidade por várias vezes de ouvir histórias suas contadas pelo outro Rubens, filho, de quem cultivo amizade. E passei a admirar mais Rubens Lemos, pois as referências que dele tinha da história do PT, dos comentários na rádio aos jogos do ABC, do jornalista combativo que fora exilado tiveram mais significado ao deparar-me com sua vida ordinária, sua humanidade. Fico feliz em saber que homenagens serão feitas pela passagem dos 40 anos de seu exílio e que a Assembleia Legislativa tenha iniciado esse processo, embora muitos que ali estão sejam uma afronta à imagem do velho Rubens.
É pela percepção dessa humanidade que me atirei a essas linhas, ao ler o antijornalístico comentário do blogueiro, encerrando seu artigo: “Deixo aqui meu beijo para Isolda, Rubinho, Yasmine e Camilo, que eu chamo de legado moral e amoroso do saudoso ‘primo’ Rubens Lemos.”
E vieram-me as inquietações (professora de Português tem mania de qurer ler os pressupostos e subentendidos…): se há “um legado moral” a ser denominado, é porque existe um legado imoral que não pode ser denominado. Ou seria amoral?
E o que seria, para Rubens Lemos, o Rubão, imoral ou amoral? Tudo aquilo que foi fruto dele – inclusive pessoas – poderia ser denominado de imoral ou amoral?
Vale dizer, em reverência à memória de Rubens Lemos, que dele há um legado moral e um legado imoral/amoral? Como se reverbera render homenagens à memória de alguém, negando-lhe a sua própria humanidade, negando-lhe o seu próprio sangue?
É possível preservar a memória de alguém jogando no limbo uma parcela de sua história, numa atitude mesquinha de pré-julgamento de conduta do seu passado e de indiferença à sua história presente, que se concretiza nas suas duas famílias?
Gostaria de ter conhecido pessoalmente o jornalista Rubens Lemos. Mas o que já li, o que já ouvi sobre ele me permitem arriscar que foi, sobretudo, um homem que viveu os extremos de suas fortalezas e de suas fraquezas e que talvez a linha que separe uma da outra seja muito tênue.
Num momento em que o Brasil tenta por às claras a sua história recente, sufocada por 21 anos de ditadura, exatamente aquele que é um dos ícones dessa luta tem sua própria história aviltada pela negação de parcela de sua vida.
É possível que esteja se revirando no túmulo com seu nome chamado em vão e pronunciado tortuosamente, como se sempre houvesse algo de sua vida a ser varrida para debaixo do tapete.

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