O dia em que o Gigante Adormecido roncou

18 de junho de 2013

Por Wellington Duarte

Nesta terça (17) o Brasil, esse gigante preguiçoso e adormecido, roncou. Não despertou como os mais ufanistas gostariam, já que o ronco parece não ter incomodado a vastíssima legião de "politicanalhas" espalhados país afora e cujo poder, de fato, encontra-se nas mãos de uma cadeia complexa de articulações políticas, que vão desde a União até o menor município da federação. Mas roncou alto. Um ronco que, segundo cifras mais otimistas, mobilizou mais de 200 mil pessoas em pelo menos dez capitais. Foi um ronco gigante.
Manifestação em Brasília : as ruas fizeram o Gigante roncar?

O ronco retumbante, que alguns esperam virar brado, não tem face, nem ideologia, mas tem discurso. Seu discurso é a da insatisfação contra os governos estaduais e municipais, que construíram uma convivência promíscua com os oligopólios que controlam os transportes públicos. Esse foi o motivo que fez detonar o processo de manifestação. Mas não é só isso.
As manifestações mostraram que a sociedade, mesmo desorganizada, é capaz de, em momentos específicos, estabelecer uma espécie de catarse coletiva, apoiadas nas redes sociais, que funcionaram como uma caixa de ressonância, estabelecendo um “espírito coletivo” basicamente entre os jovens. Das manifestações saíram gritos contra os gastos da copa, do sempre estado caótico da saúde pública, da eterna ausência de recursos para a educação, etc.
Duramente reprimidas pelas polícias locais e fulminadas pela mídia, cujo repertório de ilações ia de “baderneiros” ao extremo de “terroristas”, as manifestações conseguiram neutralizar a campanha difamatória do PIG (Partido da Imprensa Golpista) e em menos de uma semana voltaram à condição de “manifestantes”. Tudo, é claro, com a tentativa de transformarem essas manifestações em algo “ordeiro” e “pacífico”, como numa procissão de monges em voto de silêncio. Tudo ilusão, já que as manifestações podem até ter um certo controle no começo, mas nunca se pode dizer exatamente como terminarão.
Dessa vez, e sob ordens, a PM de São Paulo, governada por um tucano, fez o que se deve fazer. Acompanhou o movimento e garantiu o direito de manifestação, inerente às democracias, avançadas ou não. No incidente mais violento um manifestante de 16 anos, em Maceió, levou um tiro no rosto, deferido por um animal que dirigia o seu veículo e tentou furar o bloqueio feito pelos estudantes.
Em Brasília, manifestantes quase invadiram o Congresso Nacional, mas, com negociação, acabaram recuando e se dispersando. Apenas no Rio, onde meia-dúzia de elementos, equivalente a 0,5% do total de manifestantes que enfeitaram as ruas cariocas, resolveram dar vazão às suas adrenalinas atacando o pequeno contingente de policiais que guardava a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. As “forças repressoras burguesas”, em minoria, prontamente se refugiaram no prédio. E em Porto Alegre em que um grupelho de manifestantes resolveu digladiar-se com as tropas da PM local, os brigadistas, para extravasar seus instintos “ninjas”. Afora esses pequenos incidentes, as manifestações foram tranquilas e representativas. Tinha de tudo.
A oposição parlamentar, logo veio aos microfones, externar uma espécie de “apoio”, com o líder do DEM, José Agripino Maia, vociferando impropérios e apoiando as manifestações. Talvez o senador imagine que as pessoas mais informadas, desconheçam sua trajetória no governo e na oposição, e o tomem com um “grande democrata-revolucionário”,
Já o tucano Álvaro Dias (PSDB/PR), famoso pelo ódio ao Governo, disse que “está em marcha um movimento pela mudança” e que o modelo de gestão implantado pelo PT, nesses dez anos de governo, compromete a qualidade dos serviços públicos, como educação, saúde e segurança. Parece uma piada, mas a oposição, derrotada e enfraquecida, se agarra ao que estiver à mão, para se reposicionar em 2014.
As esquerdas estão meio que atônitas, olhando para esse movimento com os olhos da simpatia de quem nasceu dentro de processos reivindicatórios, mas meio que envergonhados por não estarem à frente desse processo. Estão colocando as barbas de molho e devem, ou deveriam já pensar em estratégias para enfrentarem as questões colocadas por estas manifestações, e evitar o retrocesso que seria um governo neoliberal, expresso na aliança PSDB-DEM, recuperar a pauta de FHC em nome do novo.
O que os organizadores dos movimentos torcem é para que as manifestações ganhem cada vez mais fôlego, e nisso recebem o apoio de alguns grupúsculos neo-fascistas que, com discursos pseudo-esquerdistas, tentam utilizar o justo processo como uma alavanca para suas organizações fantasmagóricas e truculentas, que vivem marginalizadas pelo voto e esperam encontrar a “redenção revolucionária” no seio das massas.
As consequências desta terça podem ser positivas, se empurrarem o governo, hoje prisioneiro do fisiologismo escancarado do PMDB, de volta às massas populares, contribuindo para o (re)fortalecimento dos movimentos sociais, ou negativas, se a pauta for devidamente absorvida pelo discurso das oposições conservadores no processo eleitoral de 2014.
As próximas semanas revelarão até onde esse processo fará com que o Gigante ronque mais alto. Aqui em Natal ocorrerá mais uma manifestação nesta quinta-feira (20) e veremos se permaneceremos nesse sono letárgico de um estado dominado pelos clãs, ou se o ronco do gigante nos despertou.

1 comentários:

Daniel Pessoa disse...

A foto da tomada do Congresso pelos manifestantes lembra um pouco a ocupação do #ForaMicarla à Câmara Municipal de Natal. Mas, lá em Brasília, não fizeram acampamentos nem ocupação continuada como fizeram aqui. O que fez o Gigante Roncar foi a cutucada do #ForaMicarla aqui em Natal - lembrando que a ocupação da Câmara em natal teve origem em passeatas e atos sobre a questão do aumento das passagens, depois a pauta foi ampliada para os desmandos e indícios de corrupção na gestão municipal. Enfim, Natal, desde 2011, efetivamente acordou do sono letárgico e conduziu ao ronco do Gigante nessa semana. Abraços.

 
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