Papa Francisco: "A Igreja não deve interferir com os gays"

19 de setembro de 2013

Depois de celebrar missa ao lado do sistematizador da Teologia da Libertação, Gustavo Gutierrez, o Papa Francisco continua avançando.
Na entrevista sobre a qual o Globo fala no texto que reproduzo abaixo, ele afirma que nunca foi de direita e vai adiante.

No Globo

O Papa Francisco disse em uma extensa entrevista publicada em uma revista católica que a Igreja tem o direito de manifestar as suas opiniões, mas não pode interferir espiritualmente nas vidas de gays e lésbicas, expandindo seus comentários sobre um assunto que divide clérigos. O Pontífice criticou religiosos cada vez mais obcecados em pregar sobre o aborto, casamento gay e contracepção - e disse que escolheu não falar sobre isso.

Na entrevista, divulgada por revistas jesuítas em 16 países e em diferentes línguas, Francisco afirmou que nunca foi de direita, e que as mulheres devem ter um papel maior nas decisões da Igreja. Ele defendeu ainda que a Santa Sé encontre um equilíbrio maior entre as missões espirituais e políticas, advertindo que, caso contrário, a base moral da instituição poderia desabar como um castelo de cartas.
“Uma casa para todos”
Numa linguagem direta, Francisco afirmou que a Igreja deve ser “uma casa para todos”, e não “uma pequena capela” concentrada na doutrina, na ortodoxia e numa agenda limitada de ensinamentos morais.
“Não é necessário falar sobre essas questões todo o tempo”, disse o Pontífice ao reverendo Antonio Spadaro, jesuíta como o Papa e editor da revista “La Civiltà Cattolica”. “Os ensinamentos morais e o dogma da Igreja não são equivalentes. O ministério pastoral não pode ser obcecado com a transmissão de uma gama de doutrinas desconectadas a serem impostas com insistência.”
A entrevista ocorreu durante três encontros em agosto, nos aposentos espartanos de Francisco na Casa Santa Maria, uma hospedagem do Vaticano para religiosos. Francisco preferiu viver ali do que isolado no Palácio Apostólico, onde ficavam seus antecessores.
Os comentários do Papa não rompem com a doutrina católica, mas mostram uma nova abordagem, passando da censura ao engajamento. Segundo Francisco, sua primeira missão é mudar a atitude da Igreja.
“A Igreja algumas vezes se aferra a coisas pequenas, regras de mentes fechadas. O povo de Deus quer pastores, não clérigos que atuem como burocratas ou funcionários do governo.”
Um pecador que reza na cadeira do dentista
Logo no início da entrevista, Spadoro perguntou: “Quem é Jorge Mario Bergolio?” E o Papa respondeu: “Eu sou um pecador. Essa é a definição mais precisa, não é figura de linguagem”.
Embora não tenha revelado seus pecados, contou aspectos pessoais: Francisco reza na cadeira do dentista; ele se sentiu aprisionado no Palácio Pontifício; ama Mozart e Dostoievski e tem uma queda por filmes italianos - “La Strada”, de Fellini é o seu favorito.
As palavras do Papa devem ter repercussão em uma igreja na qual bispos e padres em muitos países criticam duramente o aborto, casamento homossexual e contracepção. Estes pontos são claros para Francisco, “como filho da Igreja”, mas devem ser apresentados em um contexto mais amplo. “A proclamação do amor salvador de Deus vem antes de imperativos morais e religiosos”, afirmou.
“Uma pessoa me perguntou, de jeito provocador, se aprovava a homossexualidade. Respondi com outra pergunta: ‘Diga-me: quando Deus olha para um homossexual, ele aprova a existência dessa pessoa com amor ou a rejeita e a condena?’ Devemos sempre considerar a pessoa.”
Mudança sem pressa e improviso
Sobre as mudanças na Igreja, o Papa disse que é preciso de tempo para que elas sejam verdadeiras e eficazes. E que desconfia das decisões tomadas com improviso:
“São muitos os que querem que as mudanças e as reformas cheguem brevemente. Eu sou da opinião que é necessário tempo para que se tenha as bases de uma mudança verdadeira e eficaz...eu desconfio das decisões tomadas de forma improvisada. Desconfio da minha primeira decisão, isto é, da primeira coisa que me vem à cabeça quando devo tomar uma decisão. Costuma ser um erro. É preciso esperar, avaliar internamente, tomar o tempo necessário.”
Francisco defende uma relação de proximidade com os fiéis e afirma que a Igreja deve desenvolver com urgência a capacidade de “curar feridas e dar calor aos corações dos fiéis”.
“Eu vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha. É inútil perguntar a um ferido se tem níveis elevados de colesterol ou açúcar. Temos que curar as feridas.”
O Papa destaca a importância da ampliação da presença feminina na Igreja e do combate ao machismo:
“Temo a solução do ‘machismo de saias’, porque a mulher tem uma estrutura diferente da masculina. Mas os discursos que escuto sobre o papel das mulheres são frequentemente inspirados em uma ideologia machista. As mulheres estão formulando perguntas profundas que devemos enfrentar. A Igreja não pode ser ela sem a mulher. A mulher é essencial para a Igreja. Maria, uma mulher, é mais importante do que os bispos.”


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