Um Marine morto e o ataque à Síria

9 de setembro de 2013

7/7/2013, Rami G. Khouri, The Daily Star, Líbano – http://goo.gl/nj0mo4

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu


O intenso debate que se trava hoje nos EUA sobre se o país deve ou não atacar a Síria como punição ao regime sírio, acusado ainda sem qualquer prova de ter usado armas químicas, é dos exemplos mais dramáticos que jamais vi de democracia em ação. É o "consentimento dos governados" em operação.

É sabido que vasta maioria dos norte-americanos não apoia a ação militar. Só 36% dos pesquisados aprovam que os EUA ataquem a Síria, segundo pesquisa do Washington Post/ABC divulgada na 3ª-feira, muito menos que os 63% que aprovavam a ação militar em dezembro. E a oposição é quase a mesma nos dois principais partidos políticos.

O mesmo ceticismo vê-se também no debate na Câmara dos Deputados dos EUA. Parece ser criticamente importante que qualquer decisão que os EUA tomem em relação à Síria reflita razoavelmente os sentimentos do povo americano. E como se pode conhecer melhor esses sentimentos, por meios mais precisos que pesquisas de opinião ou declarações da imprensa-empresa?

Recentemente, tive o privilégio de poder ver mais de perto os sentimentos de uma família no Alabama, que merece todo o crédito se consultada sobre que sentido teriam os ataques norte-americanos contra o mundo árabe.

Há alguns anos, pouco antes da guerra síria, recebi uma carta de Peggy Stelpflug, mãe do cabo Bill J. Stelpflug, morto em guerra, que se alistou nos Marines em 1982, logo depois de saído do ginásio em Auburn, Alabama. Em maio de 1983 foi mandado para Beirute com o contingente encarregado de ocupar o aeroporto de Beirute.

25 anos depois de sua morte, a mãe dele, Peggy, que lecionou inglês na Universidade de Auburn, reuniu uma seleção das cartas que Bill enviou à família e mandou para mim.

Li as cartas com profundo respeito por esse jovem que serviu lealmente seu país (como o pai dele, William, piloto aposentado da Força Aérea dos EUA). Na sequência, troquei e-mails com Peggy e nos falamos pelo telefone.

Foi experiência duplamente comovedora. Comoveram-me, primeiro, as cartas de Bill para a família. Refletiam o anseio típico, tão norte-americano, por coisas como jogos de futebol e piqueniques na praia com amigos e parentes, ao mesmo tempo em que ia-se tornando adulto, responsável por armas poderosas, quase sempre contra inimigos que não via ou que jamais conheceu. As cartas mostram esses sentimentos, observações, sensibilidade à devastação em Beirute e também temores e frustrações sobre a própria missão dele ali.

Dia 7/9/1983, escreveu aos pais: "Estou vivo e bem. Meio sujo, cansado e bombardeado, mas andando e falando. Nossa 'guerra' até aqui só durou três dias. Dois Marines foram mortos por foguetes e há mais feridos. A coisa é entre o Exército Libanês que mete as calças e põe-se a bombardear muçulmanos sem mais nem menos. Começaram a atacar pelo nosso perímetro, e fomos envolvidos nos combates. Ficamos aqui levando bala e foguete... Temos revidado, com algum sucesso, mas só pegamos atiradores isolados, ou destruímos uma ou outra posição dos foguetes, com artilharia. Estou imundo, cansado demais e 100% inteiro. Preocupo-me mais com vocês preocupados comigo, do que comigo mesmo... Como vocês disseram, aqui não há paz nenhuma a ser mantida. Se você não é inventador de guerra, caia fora! Acho que Beirute é, de fato, uma base de treinamento realista para o U.S. Marine Corps, para se habituarem com a coisa de verdade. Digam a todos que estou bem e planejo continuar assim. Nada de me meter a ser herói. Cumpro meu tempo de alistamento nesse quintal de lixo no Mediterrâneo. Penso em vocês, em casa. Amo vocês muito."

As cartas chamam a atenção – e, acho, são típicas de muitos soldados norte-americanos em terras estrangeiras – pela nenhuma informação sobre o local onde os soldados servem. Ele compensa a nenhuma informação, com humor e manifestações de orgulho por estar servindo o seu país. Fez muito bem o seu trabalho (foi várias vezes promovido antes e durante a estada em Beirute).

No dia seguinte àquela carta, dia 8/9/1983 – exatos 30 anos hoje – o torpedeiro USS Bowen lançou seus torpedos de 5 polegadas contra posições druzas no Líbano. Foi a primeira vez que se viu fogo naval dos EUA por ali, o que envolveu os EUA como protagonistas ativos da guerra, aliados do governo local. Logo depois, dia 23/10/1983, um caminhão-bomba explodiu no quartel dos Marines e matou 241 norte-americanos; 58 soldados franceses foram mortos em outros ataques semelhantes. Bill Stelpflug apareceu listado como "desaparecido em ação". Dia 29/10/1983, um oficial visitou a família Stelpflug e informou que seu filho Bill fora morto naquele ataque.

O mesmo episódio emocionou-me outra vez, há 25 anos. Peggy Stelpflug escreveu-me de repente, sem mais nem menos – soube que eu estava vivo e que escrevia de Beirute sobre temas políticos, quase sempre criticando a política exterior dos EUA – e perguntou-me honestamente: "Bill serviu e morreu por alguma boa causa? A missão dos EUA no Líbano foi algo que o povo libanês tenha aprovado? Os EUA acertaram ao usar força militar no Líbano em 1982-84?

Um quarto de século depois da morte do filho em Beirute, ela precisava saber por que seu filho morrera, se a causa daquela missão fora causa justa.

Peggy e eu conversamos algumas vezes sobre o Líbano e os EUA. Acho que ela aprendeu algumas coisas novas e eu, com certeza, aprendi muito com a reação digna dela e daquela família. Pedi autorização a ela e ao marido para escrever aqui sobre as cartas de Bill e sobre a preocupação da família com as amplas questões políticas que modelam a política externa dos EUA, e eles concordaram gentilmente.

Peggy e seu marido William partilharam o meu sentimento de que a vida e a morte de Bill podem enriquecer "nosso desejo comum de sabermos mais uns dos outros, para ampliar nossa partilhada humanidade (...)  e que as lições da vida e da morte de Bill podem talvez iluminar outros."

É muito adequado que hoje – 30 anos depois de navios de guerra dos EUA terem bombardeado as montanhas do Líbano – todos nós estejamos bem certos, antes de que mais homens e mulheres dos EUA sejam mandados outra vez atacar alvos árabes, de que cidadãos como a família Stelpflug sejam atentamente consultados e ouvidos sobre decisão tão importante.

Os que já se manifestaram contra o envolvimento dos EUA em mais essa guerra merecem ser ouvidos e merecem resposta clara. O mesmo vale para o povo sírio. O mesmo vale para todo o mundo. (...) É disso que se trata, me parece, quando se fala da democracia e do "consentimento dos governados". 

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