Carta aberta em defesa dos/das agricultores/agricultoras de Potiretama e Iracema no estado do Ceará

24 de outubro de 2013

“ Ele realiza proezas com seu braço: dispersa os soberbos de coração, derruba do trono os poderosos e eleva os humildes; aos famintos enche de bens, e despede os ricos de mãos vazias" (Lc 1,51-53)

 

Por que cerca de 100 agricultores e agricultoras dos municípios de Potiretama (Comunidade da Lapa) e Iracema (Boa Esperança e Vila e Agrovila São José) em parceria com diversas entidades, movimentos sociais, pastorais e paróquias da Diocese de Limoeiro do Norte estão barrando a CE 138 desde a madrugada de 22 de Outubro de 2013? Para responder essa pergunta basta conversar com os/as agricultores/as, nas comunidades, dialogar com a juventude e com os idosos/as cujos olhos ainda não secaram, apesar da seca d’água, seca de justiça, seca de direitos, seca de democracia, seca de respeito ao povo.

 

As reivindicações seguem a direção da defesa dos direitos humanos, do respeito aos direitos sociais assegurados em nossa Constituição Federal, da dignidade humana, da justiça social: água, educação, saúde, participação popular na vida pública, etc. Essas são exigências sem fundamento? Os que acreditam e defendem uma vida digna para tod@s concordam que esses são elementos básicos, o mínimo de direitos. Deles não se pode abrir mão, caso contrário, estaremos defendendo os projetos de morte e miséria que vem vitimando os pobres deste país.

 

Então se é justa a causa, por qual razão se ouve o vociferar e o tom acusatório contra os que contribuem com a causa da justiça social? É que ainda estamos lutando em nosso solo pátrio contra as forças conservadoras do coronelismo – com nova roupagem, é claro. Estamos em pleno combate contra as forças do autoritarismo, personalismo e patrimonialismo que tanto golpeiam a frágil democracia brasileira. Se se trata de tão enérgico combate, se enfrentamos a tirania dos poderosos, por que afinal o fazemos? O que estamos conquistando?

 

Nós gritamos juntos porque desejamos fazer ecoar em todos os recantos a denúncia de um modelo de morte que defende os gananciosos e contribui para que os poderosos continuem a se locupletar às custas do sofrimento, exploração e expropriação do povo trabalhador; Para denunciar as violações de direitos sofridas por nós tendo o Governo Federal (representado pelo DNOCS) como órgão responsável por essa política destrutiva; Nós gritamos para denunciar que o quê está em primeiro lugar nos planos do Governo Federal/DNOCS é a construção das obras para favorecer o Agrohidronegócio e reforçar o poder econômico dos grandes proprietários de terra da região; Para denunciar que o DNOCS vem promovendo uma guerra contra reforma agrária, expropriando os (as) agricultores (as) e repassando nossas terras, com um conjunto de infraestruturas hídricas, para o Agrohidronegócio Fruticultor drenar nosso solo, suor e água para Europa e Estados Unidos; Nós gritamos para anunciar que acreditamos que a união faz a força na luta por nossos direitos e para efetivar uma alternativa ao modelo de produção/morte proposto pelo DNOCS – Acreditamos num modelo de desenvolvimento pautado na solidariedade e sustentabilidade socioambiental. Nós gritamos porque defendemos um projeto de vida que tem o ser humano em primeiro lugar e não o lucro. Um projeto que pretende a relação harmoniosa entre os seres humanos e a natureza e não a destruição desta em favor da riqueza descomunal e imoral de uns poucos. Nós gritamos enfim porque nos sentimos parte de um grande projeto de humanidade, de humanização do ser humano. E esse projeto não se efetivará plenamente enquanto persistirem as injustiças contra os povos pobres, os oprimidos, os deserdados da terra, os humilhados, os milhões de desfavorecidos e excluídos. Por essa razão estamos dizendo NÃO a todas as formas de opressão, violência e negação de direitos: TERRA, ÁGUA E VIDA DIGNA PARA OS/AS AGRICULTORES/AS DE POTIRETAMA, IRACEMA!

 

Nós queremos a definição e aquisição das áreas de produção para as famílias atingidas pela Barragem do Figueiredo; Agilidade na execução dos acordos firmados no Termo de Ajuste de Conduta (construção dos reassentamentos, energia, água, estruturas sociais, áreas de reserva...); Política efetiva para garantir a transição para as novas áreas de moradia e produção.

 

Com as comunidades rurais de Potiretama e Iracema nos irmanamos na defesa da vida em toda a sua plenitude e não ousamos calar, não ousamos fugir ao compromisso firmado em prol de uma sociedade mais fraterna e mais justa. Por essas razões dizemos SIM as lutas das comunidades; com o povo que sofre partilhamos suas dores; com aqueles que  dão o testemunho de Cristo oferecemos nossa força, solidariedade e apoio incondicionais.

 

Abaixo-Assinados:

 

Diocese de Limoeiro do Norte

Cáritas Diocesana de Limoeiro do Norte

Cáritas Brasileira Regional Ceará

Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro – Potiretama

João Alfredo Telles Melo, advogado, professor, vereador pelo Psol, Presidente da Comissão dos Direitos Humanos da Câmara Municipal de Fortaleza.

Agência de Notícias Esperança - AnotE

Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos – CEBI

Associação Tremembé

Comissão Pastoral da Terra – CPT

Cáritas Arquidiocesana de Fortaleza – CAF


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