Marcha "pela vida"?

8 de outubro de 2013

No último domingo teve lugar aqui em Fortaleza uma Marcha pela Vida.

Na verdade, uma marcha contra o aborto.
Por diversas vezes, chegando a minha casa, eu via um outdoor de divulgação do evento. A foto de um delicado ursinho de pelúcia se aquecendo como se preparasse para participar do evento.  Aquele outdoor me incomoda - assim como a simplificação ideológica do tema: "Marcha pela vida", como se fosse tão simples separar favoráveis e contrários ao aborto em "pela vida" e "pela morte".
Particularmente, sou contra o aborto - de repente poderia ser incluído no grupo "pela vida". Mas sou homem e jamais saberei o que é a possibilidade de fazer um aborto. Quando penso ou falo do aborto falo e penso em coisas que, em geral, não me dizem respeito pessoalmente - talvez somente como parte de uma humanidade comum.
Mesmo assim, não é disso que falo ao pensar no absurdo que é a separação entre "pela vida" e "pela morte" de eventos como esse. Passa por pensar na questão "vida de quem?" - e posso imaginar que muitos que são "pela vida" do feto não pensam na vida da mãe do feto e/ou não pensam na vida do sujeito criminoso que está cumprindo pena em péssimas condições de vida no fundo de um presídio.  Preocupam-se com a vida do feto, mas não com tantas outras vidas em risco em nossa sociedade.    Ainda assim, pensar nessas questões passa por especular as intenções de uma elite movida tantas vezes por um sentimento e discurso religioso - o que, de verdade, é inviável a não ser como hipótese.
Mas penso mesmo na contradição interna da afirmação "pela vida" que só serve para confirmar a forte intenção ideológica da expressão.
Se ser a favor da vida é ser contra o aborto, o sujeito se coloca em situações éticas complicadas.
Digamos que eu seja "pela vida" e minha esposa está em uma gravidez de risco. Manter a gravidez é por em risco a vida dela. Mas se ser "pela vida" é ser contra o aborto deveria ser contra o aborto inclusive nesses casos - se a simplificação discursiva proposta pelo lema fosse possível. E eu duvido que na hora H qualquer um "pela vida" opte por matar a esposa e preservar a gravidez. 
E aí eu fiz um aborto mas isso faz de mim alguém "pela morte"?
Imagine que o cenário ainda pode ser pior. Milhares de mulheres todos os anos fazem e continuarão fazendo aborto no Brasil, na ilegalidade. Cada aborto desses representa sério risco à sua saúde e, de fato, o número de mulheres que morrem por causa de complicações resultantes de abortos ilegais é imenso no país. As pobres, principalmente, morrem. As ricas ou pagam clínicas em melhores condições ou podem até sair do país para abortarem.  
O movimento que relaciona ser "pela vida" com ser contra o aborto é a favor da morte dessas milhares de mulheres em risco? Imagino que não. Qualquer ação que possa tentar preservar a vida dessas milhares de mulheres - mesmo que represente suportá-las na decisão de abortar - é pela morte? Ou será que os manifestantes que foram às ruas da cidade no domingo "pela vida" defendem a morte das mães que abortam ilegalmente no país?
Evidente que em relação ao aborto a divisão não pode ser entre "pela vida" e "pela morte". É assim por uma questão discursiva e ideológica - afinal resumir a questão do aborto a uma discussão nesses termos é tudo que quer uma ideologia que, ao evitar a reflexão ética dos sujeitos e submetê-los a um autoritário discurso moral, os ajuda a aderir a uma idéia como se fosse simples de modo a que não se lhes questionem os fundamentos e reais causas.

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