Metal Sheherazade

25 de janeiro de 2014

Por Murilo Cleto
No Desafinado




A descoberta do rock é uma experiência libertadora. Não é por acaso que, pra grande maioria, aconteça na adolescência. O rock é uma espécie de mecanismo que destrava as amarras do superego, construído ao longo de qualquer infância mais ou menos normal. E existe algo de solitário neste desbravo: na casa, ninguém mais; na rua, ninguém mais; na escola, quase ninguém mais.

Me lembro com detalhes do primeiro CD do Guns n' Roses que veio parar em casa, no alto da Vila Osório. Certamente os vizinhos também. Era inexplicável o sentimento de uma audição que, pela primeira vez, parecia fazer algum sentido. Nunca havia gostado de música até então. Nunca. Appetite For Destruction é uma surra num saco de pancadas. E talvez eu continuasse não gostando exatamente da música, mas da surra. E ela era muito boa.

Aos poucos, a vivência solitária do rock é substituída pela identidade que ele oferece como poucas outras inscrições. Cresce o cabelo, preteia o guarda-roupas e o discurso afina tanto quanto a voz de Paul McCartney. Não demora muito para que a inserção no seleto grupo de adoradores do rock esteja condicionada a uma série de rejeições. 

Verdade seja dita, essa regra que vale para toda identidade: para ficar dentro, você precisa estar fora de uma porção de outras. Por exemplo: não basta ser palmeirense, é precisoodiar o Corinthians para fazer parte da comunidade de palmeirenses no mundo. Da mesma forma, para ser roqueiro mesmo é preciso rejeitar o que os outros gêneros têm a oferecer.

Mas existe algo de perturbador nisso, levando em consideração o que significou o rock pra história do Ocidente na última metade de século. O rock n' roll nunca teve nada de refinado. Aliás, quando tentou isso, nos apresentou barbáries como o metal melódico, por exemplo. Nos anos 50, os acordes de Chuck Berry eram rápidos, desleixados, e o que chamava atenção não era a perfeição na execução das notas, tampouco o alto grau de complexidade nos arranjos, mas aquele espasmo de libertação que o rock pode causar como poucas experiências. O conteúdo das letras? Mulheres, bebidas e, claro, o próprio rock' roll.

Na mesma década, um bom menino, de origem cristã, encantou o mundo com passos rápidos no palco e um penteado inconfundível. Elvis Presley levou milhares de fãs ao delírio enquanto transformava o rock num fenômeno mundial. Ele também não estava discutindo as novas tendências da Escola de Annales, na França, ou as implicações do pós-estruturalismo no mundo contemporâneo.

Nos anos 60, os Beatles levaram o gênero ao auge com uma verdadeira revolução no mercado fonográfico: meninos do subúrbio de Liverpool que se tornaram famosos tocando coisas simples que todo mundo gostaria de ouvir. Hoje é praticamente impossível apontar alguém que 1) não goste de Beatles ou 2) não tenha suas composições influenciadas, de alguma forma, por eles.

Apesar do sucesso, levou um tempo (e há quem diga que até hoje funciona assim) pro rock sair da clandestinidade que o assolou. Quando o Kiss veio ao Brasil pela primeira vez, em 1983, a comunidade cristã abraçou o estádio do Maracanã em protesto pela presença dos "Cavaleiros a Serviço de Satã", como eram conhecidos pelos mais conservadores nos EUA. 

Woodstock foi considerada uma experiência lastimável de degradação moral e consumo indiscriminado de drogas. Jimi Hendrix foi um dos porta-vozes desta geração com um estilo único de tocar: liberdade na montagem dos acordes, uma agressividade nunca vista nos arranjos e um tapa na cara no conservadorismo consumista do american way of life - e isso nunca de maneira direta. John Lennon dormiu com a mulher numa vitrine para protestar contra a lógica brutal da Guerra do Vietnã. 

50 anos depois de uma porção de lutas pela diversidade, hoje me surpreende o fato de que parte da comunidade do rock esteja a frente de bandeiras nem tão progressistas assim. Chamo esse fenômeno de "Metal Sheherazade".

Ela apareceu há cerca de 3 anos atrás. Foi ovacionada depois de um comentário estridente na TV Tambaú sobre o Carnaval na Paraíba. Rachel Sheherazade foi rapidamente transformada em ídolo por escancarar as máximas do pensamento reacionário do tempo presente sobre o Bolsa Família, a dignidade humana dos presidiários e, claro, os rolezinhos. 

Quando foi notícia a aprovação de uma candidata com projeto sobre Valesca Popozuda, no mestrado em Cultura e Territorialidade da Universidade Federal Fluminense, comentou - já no SBT:

"É, as universidades se popularizaram e, com elas, os temas das teses de mestrado. No projeto intitulado 'My Pussy é Poder', o funk carioca, que fere os meus ouvidos de morte, é descrito como manifestação cultural. Pior é que ele é, pois se cultura é tudo que o povo produz, do luxo ao lixo, funk é tão cultura quanto bossa nova. Sinal dos tempos, né? A tese da estudante Mariana Gomes abordou também a possível relação entre as divas do funk, do naipe de Valesca Popozuda e Tati Quebra-Barraco, e o feminismo. Parece até piada. Com letras impronunciáveis para o horário, e que mostram a mulher como objeto sexual, as funkeiras estão anos luz aquém do feminismo. O projeto se propõe a estudar tudo isso a fundo. Mas será que o assunto tem profundidade pra tanto?"


Deixando de lado o fato de que no Mestrado não se apresenta tese, mas dissertação, Sheherazade não está sozinha. Reproduz um discurso nada entalado nas gargantas de uma classe média que entende tanto de música quanto de cultura ou do mundo acadêmico. Aquela que gosta de sertanejo, mas - grife-se - o de raiz. Aquela que aprecia o funk, mas o James Brown.

Ontem, foi frisson no Twitter a série de comentários da usuária "Annie Hall" sobre os shoppings como palco pra bailes funks. Tudo começou depois de uma postagem de Pedro Sanches que dizia o seguinte: "'Shopping não é lugar de baile funk' = shopping é lugar de comprar mooooooito e sair calado." 

Pronto, Annie Hall foi pra cima com toda a sua bagagem intelectual. Entre outras argumentações, disse que bailes funks são umas das coisas mais grotescas que já viu, que deveriam ser feitos em clubes e não em shoppings. E mais: "não é música pq só tem ritmo, a dança é horrível e as letras, bem, não existem.." Não demorou muito e, claro, "ah sim, o funk do James Brown e do Parliament-Funkadelic (são geniais).. pq o que fazem aqui é um LIXO". "Bom, aquilo não é música, só isso. Não existem notas musicais, nem na horizontal, nem na vertical.. #UF (unfollow) e boa esfregação no baile"

Flavia Penido entrou na discussão e trouxe algumas informações que não deveriam ser tanta novidade assim: diziam a mesma coisa do samba (esse que hoje é glorificado como antítese do pagode) e do maxixe, tanto que, como lembrou, "a polícia PRENDIA quem tocava samba. Tinha músico que andava com salvo conduto". 

Irritada, Annie Hall encerrou a conversa com uma autoridade acadêmica invejável:
Confira a discussão toda aqui

Para acabar com quaisquer dúvidas, aqui temos um dos maiores sucessos de James Brown (a "antítese" do funk carioca), o clássico Sex Machine:

Fellas, I'm ready to get up and do my thing (yeah go ahead!)
I wanta get into it, man, you know (go ahead!)
Like a, like a sex machine, man (yeah go ahead!)
Movin' and doin' it, you know
Can I count it off? (go ahead)
One, two, three, four!
Get up (get on up)
Stay on the scene, (get on up), like a sex machine (get on up)
Get up (get on up)
Stay on the scene, (get on up), like a sex machine (get on up)
Wait a minute!
Shake your arm, then use your form
Stay on the scene like a sex machine
You got to have the feeling sure as you're born
Get it together, right on, right on
Get up (get on up)
Hah!
Get up (get on up)
You said, you said you got the
You said the feeling
You said the feeling you got to get
You give me the fever 'n' a cold sweat
The way I like, it is the way it is
I got mine 'n' don't worry 'bout his
Get up (get on up)
Stay on the scene, (get on up), like a sex machine (get on up)
Get up (get on up)
Bobby! Should I take 'em to the bridge? (go ahead!)
Take 'em on to the bridge! (take em to the bridge!)
Should I take 'em to the bridge? (yeah!)
Take 'em to the bridge? (go ahead!)
Hit me now!
Come on!
Stay on the scene, like a sex machine!
The way I like it is, is the way it is
I got mine, (dig it!), he got his
Stay on the scene, like a lovin' machine
Stay on the scene
I wanna count it off one more time now (go ahead!)
You wanna hear it like it did on the top fellas? (yeah!)
Hear it like it did on the top? (yeah!)
Hit it now!
Get on up (get on up)
Get up (get on up)
Get up (get on up)
Get on up (get on up)
Stay on the scene, (get on up), like a lovin' machine (get on up)
Get up (get on up)
Taste (get on up)
Bein' (get on up)
Get up (get on up)
Stay on the scene, (get on up), like a sex machine (get on up)
You gotta have the feelin (get on up)
Sure as you're born (get on up)
Get it together, right on, right on
Right on, right on (right on, right on)
Get up (get on up)
And then, shake your money maker
Shake your money maker (6x)

Get up (get on up)
Huh!
Get up (get on up)
Can we hit it like we did one more time, from the top?
Can we hit like that one more time
(One more time!)
One more time!
Let's hit it and quit! (go ahead!)
Can we hit it and quit? (yeah!)
Hit it!


Qual a diferença entre o conteúdo das letras de James Brown e de MC Dandara? Pouca. Acontece que um deles caiu nas graças da crítica especializada do centro tempos depois e foi imortalizado pelas amarras do chamado "bom gosto". Aliás, Woody Allen (Annie Hall) tem o que de refinado nos seus filmes? Gosto muito da obra do cineasta norte-americano, mas dá pra chamá-lo de gênio? 

James Brown é bom demais. Mas o argumento de que é bom porque sua música e sua letra irrompem as barreiras da trivialidade e encontram com o sublime é mais do que desonesto. É imbecil. São os mesmos "bons costumes" de hoje que ontem nos colocaram atrás das grades.

E o carnaval? Quantas vezes a "devassidão moral" dele nos dias de hoje não é confrontada com a "inocência" dos "tempos de antigamente"? Pois bem, essa marchinha dos anos 20 dá a dica:


Me choca que parte das pedras atiradas contra o funk repouse justamente onde mais se receberam apedrejamentos. A experiência libertadora individual do rock parece ter encurtado o caminho rumo à direita e o que se conquistou nos anos 60 para o centro hoje é negado para as margens. Lobão e Roger estão aí pra mostrar que a liberdade de manifestação tem lugar, e muito bem marcado.

A libertação pessoal de Ted Nugent também parece não ter sido o suficiente para que o guitarrista norte-americano aprendesse alguma coisa sobre discriminação. Abrindo show pro Kiss, chegou a dizer que imigrantes que não falam inglês deveriam ir embora dos EUA. Em 2003, adjetivou com as piores qualidades negros e asiáticos. 

Durante o último Rock in Rio, Rachel Sheherazade perdeu a compostura e os bons costumes durante o show do Iron Maiden. Foi à loucura ao som de The Evil That Men Do. Tem razão, é uma puta - desculpa - música.



Por um rock mais Hendrix e menos Sheherazade. 

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