A estrada e o retrovisor

8 de outubro de 2014

Por Raoni Fernandes

No Blog do Zé Dirceu

Demorei alguns minutos pra perceber que pegar a estrada sozinho não era tão ruim. Logo me toquei de quanto tempo fazia que eu não tinha tanta privacidade, sem telefone, sem internet, sem companhia, duas horas e meia de estrada pela frente. Deu tempo ouvir a música que eu queria, pensar no que eu queria, pensar na vida; deu tempo sorrir e chorar, deu tempo de lembrar e até esquecer.

Em um dos momentos busquei uma lembrança bem distante, um dia especial pra mim, que sempre me faz refletir sobre o quanto sou privilegiado. Eu e Cauê, na época tínhamos 15 e 8 anos, passávamos férias escolares em Brasília. Papai nos levou pra uma solenidade em que teríamos a oportunidade de talvez ver de perto o presidente Lula. Era o dia em que ele sancionaria o PROUNI. Logo percebi vários jovens com camisas amarelas, com uma sigla estampada: MSU. Eu era até antenado, mas não era militante nem sabia que existia um Movimento dos Sem Universidade. Mas logo me situei e compreendi por que aquela galera estava tão feliz.

Lula estava apresentando um programa que iria inserir nas universidades jovens que provavelmente não teriam acesso a elas, por disputarem o ingresso em condições bem inferiores às minhas, por exemplo. Lembro que senti muito orgulho do meu pai e da geração dele, por terem lutado e conquistado não só uma democracia, mas um governo que pôde mudar a realidade de oportunidades das gerações que estavam por vir. Pensando nisso, fiquei refletindo sobre a responsabilidade da minha geração. Dizer que temos um país perfeito, que já superou todos os seus problemas, é tão egoísta quanto essa geração negar a política, se omitir e deixar passar a oportunidade de fazer esse projeto em curso avançar mais e mudar mais. Logo essa geração beneficiada – ainda em sua juventude – com expansão dos IFRNs, estruturação das universidades, PRONATEC, PROUNI, diminuição do desemprego, distribuição de renda, deixará passar a oportunidade de mostrar aos seus filhos que contribuiu com o avanço dessas políticas e criação de novas outras?

Eu sei que nós queremos mais. É justo que queiramos. Mas, apesar de a estrada à frente ser mais importante que o retrovisor e exigir mais a nossa atenção, se de vez em quando você não olhar atentamente pelo retrovisor, como saberá de onde veio e, consequentemente, para onde quer ir?

Eu sei, amigos e amigas da minha geração, que somos impulsionados a exigir o imediatismo, a querer as coisas pra agora, eu sei que às vezes achamos que 12 anos talvez seja muito, mas quando decidimos disputar o poder pelas vias democráticas, nós decidimos fazer diferente, com a ousadia de quem entende que as principais mudanças são a longo prazo e que escolhemos o caminho menos percorrido, porque os outros já haviam sido testados durante 500 anos.

Eu também me pego com pressa, mas lembro que não é mais só por mim e por vocês que luto, mas para orgulhar as próximas gerações, para não deixar o país retroceder, pois não seria justo com a geração dos meus pais (retroceder nessa eleição em específico é não reeleger Dilma e deixar a direita retomar o poder).

Escrevendo isso agora me vem à mente um poema que gosto muito, de Robert Frost, que se chama “O caminho menos percorrido”. Compartilho com vocês desejando boa luta:

“Num bosque amarelo dois caminhos se separavam,

E lamentando não poder seguir os dois

E sendo apenas um viajante, fiquei muito tempo parado

E olhei para um deles tão distante quanto pude

Até onde se perdia na mata

Então segui o outro, como sendo mais merecedor,

E tendo talvez melhor direito,

Porque coberto de mato e querendo uso

Embora os que por lá passaram

Os tenham realmente percorrido de igual forma,

E ambos ficaram essa manhã

Com folhas que passo nenhum pisou.

Oh, guardei o primeiro para outro dia!

Embora sabendo como um caminho leva pra longe,

Duvidasse que algum dia voltasse novamente.

Direi isto suspirando

Em algum lugar, daqui a muito e muito tempo:

Dois caminhos bifurcavam numa árvore,

Eu escolhi o menos percorrido,

E isto fez toda a diferença.”

 
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