Política, debate e a autodestruição de Marina Silva

6 de outubro de 2014

Tenho muitos amigos que foram de Marina. Muitos deles se ressentiram contra o PT devido à campanha.
Penso que parte desse ressentimento parte de um certo grau de despolitização das eleições.
Explico.
Esse primeiro turno foi o mais politizado que já vi na minha vida. Todos os debates se deram no nível político - e a desconstrução de Marina Silva se deu no campo político. Ainda que houvesse discussões sobre questões pessoais e religiosas isoladas, o cerne da disputa promovida por Dilma e Aécio foi política.
Na discussão política não se configura ataque pessoal a exploração das contradições dos adversários. Isso é a própria essência da discussão política.  Marina era frágil como candidata - suas propostas políticas arriscadas ou contraditórias.
Foram elas que foram levadas ao ringue. 
Incomodou muito a leitura que muitos amigos marineiros fizeram de que havia um jogo sujo contra ela. Muito. Sei que esses amigos não votarão em Dilma no segundo turno porque estão ressentidos.
Incomodou-me porque essa discussão, para mim, era puramente política. Se eu não concordo com a independência formal do Banco Central e quero dizer isso ao público, preciso traduzir os riscos que enxergo em termos de comunicação.
Se acho arriscado termos uma redução da participação dos bancos públicos no financiamento das ações de desenvolvimentos do país, inclusive em programas como o Minha Casa Minha Vida, tenho que dizer isso. Reduzir a participação dos Bancos Públicos no MCMV significava por em risco o próprio programa. 
Se o programa de mais de 200 páginas dedica uma linha ao Pré-sal sugerindo reduzir a ênfase na sua produção, é legítimo perguntar sobre os riscos que isso implica para o financiamento da saúde e da educação a partir do marco regulatório e sua destinação dos royalties. 
Nenhuma desses discussões foge da política e entram no campo pessoal. Nem se configuram em calúnias ou difamações.
Também eram políticas as críticas às sugestões de governo de Marina além dos partidos. O que eu particularmente disse a esse respeito é que ela sabia que isso não seria possível: não se negocia apoio de políticos sem negociar apoio de partidos.
Também foi política a crítica ao recuo do programa sobre LGBT de Marina. Nem falo que ela recuou por causa de tweets de Malafaia, mas só o recuo já era complicado.
E o que era, senão política, questionar as propostas de flexibilização da legislação trabalhista e a mudança de papel da justiça do trabalho?
Tudo isso era política e não difamação. Porque o debate eleitoral é competitivo, não colaborativo. E nessa competição, tenho de explorar os flancos abertos pelos adversários.
Para ter chance nessa competição, é preciso coerência. Se o eleitor vir no candidato um grau elevado de incoerência, desistirá dele.
A campanha de Marina foi extremamente emocional - pela figura mítica que a ex-ministra construiu e pelo contexto da morte de Eduardo Campos.  Dizia em agosto que não era possível argumentar racionalmente com os amigos marineiros. Eles estavam movidos por afetos e por emoções acima de tudo.
Esses afetos e emoções passam. A onda passa. Sabia que ela perderia força. Só não imaginava que passaria por esse processo de auto-destruição que ela passou.
Marina foi derrotada (por Aécio) ao ser flagrada na mentira sobre o voto a respeito da CPMF e, principalmente, pela fragilidade no debate da Globo.
Um amigo marineiro perguntou: "Quem perdeu o debate?" Respondi: Marina. Parecia uma criança debatendo com PhDs. Ela foi estraçalhada por Aécio, Dilma e Luciana Genro.
A última semana foi decisiva para que o voto antipetista que havia deixado Aécio quando a ex-ministra parecia poder ganhar retornasse para o tucano. A maior revoada se deu depois do debate que expôs toda fragilidade da ex-ministra.
Continua me parecendo muito pouco racional imaginar que Marina perdeu por causa de difamação dos petistas e tucanos. Ela perdeu para a sua própria fragilidade.

 
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