Nossa Insurreição da Consciência: “Ma Nêga” e o racismo

7 de novembro de 2014

Por Andressa Morais
Na Carta Potiguar

O que faz de nós mulheres ainda hoje sermos tratadas de modo rebaixado, calunioso, interessado e violento? O que está tão mal explicado que nos faz pensar em transferir juízos de valor sobre os corpos não-frágeis, mas fragilizados por terceiros? O que nos torna violáveis? Há aqui um imperativo moral que está em cada um de nós, pois Eu sou o Outro e o Outro sou Eu. Sendo assim acendo uma faísca com as palavras do filósofo alemão Immanuel Kant: “a desumanização infligida a outrem destrói a humanidade em mim”. Como um silogismo a explicação kantiana traduz um pouco a relação social sobre a qual irei me debruçar daqui por diante no texto que segue em que a violência contra as mulheres, o machismo e o racismo voltam a nos interpelar.

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Vejamos atentamente o caso que se passa a nossa volta no Rio Grande do Norte. O artista mossoroense Artur Soares, músico e compositor, divulgou uma canção cujo título é “Ma Nêga” e tem repercutido entre nós (a letra: http://letras.mus.br/artur-soares/ma-nega/). O sucesso tem alcançado a boca do povo, pois nas redes sociais só se fala nisso (a favor ou contra o compositor). Na minha ‘timeline’ não aparece outro assunto (depois da política). Recebi mensagens com a polêmica, vi algumas discussões, li a nota do Coletivo Leila Diniz, acabo de ler uma entrevista com o próprio Artur a respeito do ocorrido, até aqui estava observando melhor o cenário para entender o que se passa e diante dos comentários do próprio músico, encontrei o motivo para apertar o gatilho e escrever este texto. Incomoda e muito presenciar (quando não, sofrer) eloquentes discussões a respeito de violências infligidas contra as mulheres negras ou sobre a população marginalizada de modo geral, os mais diversos grupos de pessoas que sofrem violência diariamente física e/ou simbólica.

Gostaria de tratá-la como um problema moral e dizer que a possibilidade de bem equacioná-la está potencialmente inscrita em nós mesmas/os. O esforço será o de preservar o espaço da razão, diante da afetividade, considerando importante mencionar a/o leitora/or de onde estou falando, o meu lugar no mundo, minha identidade de mulher, negra, nordestina e ativista de Direitos Humanos. Portanto, nenhuma palavra aqui está isenta da caluniosa neutralidade.

O jovem músico fez um esforço para demonstrar em sua produção audiovisual as mulheres como as protagonistas, as negras como as eleitas para uma homenagem e o cotidiano aparece de modo leve, expondo diversas realidades e mulheres. Mas, caberia a mim a interpretação da letra de sua canção? Não. Eu concedi o crédito da licença poética, ouvi e curti a baladinha. Considerando que se trata de uma expressão artística que terá se esforçado em imprimir outras marcas do simbólico sobre a mulher negra, há duas passagens importantes na letra da música, observem:

“Nêga, você vai gostar
Nêga, eu vou te prender
Na senzala iorubá

E o que eu ensinar
Você vai ter que aprender
Porque eu vou te maltratar

Pretinha”

É preciso ter em mente o significado histórico sobre três palavras “prender”, “senzala” e “maltratar”. A primeira no sentido de privar alguém de liberdade e forçar seu aprisionamento já nos leva à segunda, aquele sombrio lugar de alojamento dos escravos no Brasil até o século XIX, onde ocorriam maus- tratos, isto é, tratamento brutal e grosseiro seja por atos ou palavras. Além disso, problematizaria ainda o caráter machista das sentenças escritas e cantadas sempre em tom imperativo sobre o que “a nêga” deverá “fazer”, “sentir”, “aprender”, “querer” e “gostar”.

Nosso olhar precisa se deter principalmente na maneira como ocorreu a histórica formação brasileira de um enorme contingente de pessoas marginalizadas socialmente, carentes de recursos materiais e principalmente de reconhecimento social. Após o período da escravidão, negras e negros não tiveram condições mínimas e dignas de existência para almejar e alcançar a condição de cidadão, de gente, de pessoa, de ser humano. O ponto de partida para este significado é a abolição da escravatura em 1888 (Lei Áurea), onde as/os escravas/os foram abandonadas/os à própria sorte e a ausência de reconhecimento de sua identidade se perpetuou, reproduziu e excluiu esse contingente de subcidadãs/ãos brasileiras/os até os dias atuais.

Nós fomos jogadas/os à nossa própria sorte, as mulheres negras relegadas ao uso explorado de seu corpo como moeda sexual. Se para o homem negro o sistema capitalista minou sua liberdade econômica e moral, para as mulheres negras, não parou por aí, o pior ponto de partida foi tê-las lançado a exploração sexual como possibilidade de existência. Algo que deveria ficar mais claro nos livros de história, geografia e sociologia, é o passado de exploração e alienação dos corpos negros, que tem reproduzido estereótipos e estigmas sobre nós. Digo isso, pois os jovens rapazes são alienados por esta deseducação que se perpetua racista, machista e escravocrata sobre nós. E algumas moças que consentem, permitem e se deixam.

O inconsciente do músico o traiu em sua resposta, veja o comentário do jovem após a crítica e pedido de retratação emitido pelo Coletivo Leila Diniz:

“rsrsrsrsrsrs” [...] “lavagem de roupa que é bom, nada…”

Com isto, Arthur revelou para nós as categorias de pensamento que habitam sua mente e que estão assentadas, principalmente, sobre o machismo e o racismo. Portanto, já não poderia dar o crédito da licença poética. Mas, ele não está sozinho nessa, a cantora khrystal participa do videoclipe (oh céus! Que decepção).


O impensado social, aquilo que está internamente circulando em nossas cabeças, mas que no caso em questão, o filtro politicamente correto não o deixou falar diretamente, apareceu de outras maneiras na letra da canção, no momento introspectivo e de exercício íntimo de quem a escreveu e nos comentários da internet em tom jocoso e debochado.

“O seu prêmio? – O desprezo e uma carta de alforria quando tem gastas as forças e não pode mais ganhar subsistência” – (Marciel Pinheiro).

É preciso dizer mais alguma coisa: Nós não somos mais escravas! Para este tipo de pensamento machista e racista que habita o seu inconsciente, caro músico, nós movimentamos a NOSSA INSURREIÇÃO DA CONSCIÊNCIA.

 
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