Sobre o Prêmio Gandhi e a Agência da Boa Notícia

2 de novembro de 2014

Publico abaixo texto de minha orientanda Rosana Reis. Tenho aprendido muito com ela.


Por Rosana Reis
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=717663201653683&set=a.117097515043591.29717.100002300305042&type=1&fref=nf

Sou Rosana Reis. Quase 25 anos, estudante de jornalismo pela UFC, funcionária pública. Contra a redução da maioridade penal, a favor da legalização do aborto pra que se garanta a autonomia do corpo da mulher, a favor da legalização de todas as drogas pra que se diminua extermínio da juventude negra e pobre através da desculpa do tráfico. Simpatizante e apoiadora da causa LGBT. Militante em menos coisas do que gostaria. Colaboradora do projeto Na Rua, da Urucum - Assessoria em Direitos Humanos, Comunicação e Justiça, um dos coletivos cuja resistência ainda me faz crer na humanidade que há por trás dessa Fortaleza de indiferença.

Mas nem sempre fui assim.

Já fui mais conhecida por Rosana Taynara, já tive 16 anos de idade, já fui estudante do ensino médio no Colégio Militar de Fortaleza, evangélica praticante, reacionária não por reflexão, mas por uma mistura de fé e inexperiência na vida. Sim, mudar posicionamentos e assumir contradições nunca foi um problema para mim.

Em 2013, Rosana Reis, 23 anos, ex-estagiária do Sistema Jangadeiro pelo ProgramaCâmera 12, ganhei, junto a uma equipe de amigos e colegas do peito, o Prêmio Gandhi pela produção e reportagem da matéria "Pré-carnaval: Do Povo e para o povo". Corrija aí, caro fake: não fui congratular amigos pela estatueta, eu estava diretamente envolvida nessa conquista. Talvez essa informação nem me beneficie muito, mas é isso: não tenho nada a esconder. Foi suado sim, foi sambado sim, só quem estava naquela equipe sabe o que aconteceu por trás dessa conquista e nos bastidores da ABN. Não me arrependo, não vou apagar a foto do meu perfil, faz parte da minha história como comunicadora em formação.

Mas outros processos também fazem parte do meu processo de formação enquanto comunicadora, ser humano e agente político.

Em 2014, Rosana Reis, participei de uma intervenção pré-entrega do Prêmio Gandhi, fazendo a cobertura do ato que se posicionava contra as contradições da ABN (financiamento por empresas de segurança privada paralela à divulgação da cultura de paz, apoio a causas "pró-vida" que ignoram o direito das mulheres, assinatura em publicidade reacionária e eleitoreira.) Sim, o mesmo Gandhi da Agência da Boa Notícia. Sim, o mesmo, com as mesmas contradições que apresentara em 2013, ano em que eu estava ansiosa na plateia pela divulgação do resultado.

O que esse lapso temporal fez comigo? Tornou-me contraditória? Talvez. Mas muito além disso: tornou-me um pouco menos incoerente. 

Nesse período, a Jornada de Junho, em Fortaleza, estendeu-se até meados de outubro com a Ocupação do Parque do Cocó. Vi duas desocupações violentas do acampamento. Me demiti de estágio por não concordar com parte da linha editorial e da conduta profissional de lideranças dentro da empresa. Vi profissionais respeitáveis do meu meio sendo demitidos e tratados feito estopa pela grande imprensa. Conheci coletivos de midiativismo. Me envolvi com eles. Vi um Alto da Paz entrando em colapso. Chorei por eles. Decidi que o meu TCC se aproximaria da história de quem nem casa tem pra morar, e portanto cuja trajetória pouco importaria pra tanta gente. Participei de atos em que amigos foram roubados por seguranças privados e agredidos física e materialmente por policiais militares. Fiquei sabendo que amigos comunicadores boicotariam, nesse mesmo ano, o Prêmio Gandhi, por razões que até então eu não teria me atentado ou até mesmo questionado. Mudei de casa. Duas vezes. E não posso mudar de opinião?

A quem se deu o trabalho de criar um perfil fake e um tumblr pra tentar me difamar ou me questionar, usando uma foto da minha página pessoal, eu queria dizer: cara, muito obrigada. Me fez notar quanta coisa me ocorreu nesse período, e como a gente precisa continuar em constante reciclagem dos nossos ideais, dos nossos métodos. Ano passado eu morri, mas nesse ano eu não morro!

E não pense que teve uma grande sacada fazendo isso, eu mesma já tinha me rido de como a vida prega peça na gente.

Mas, além do "muito obrigada", vai aqui o meu "sinto muito". Sinto muito pelo tempo perdido fazendo acusações pessoais, que poderia ter sido muito melhor utilizado pra contornar uma possível "crise de comunicação". Sinto muitíssimo pela falta de habilidade de sentar pra conversar enquanto agência e se questionar se de fato vale a pena continuar juntando seu nome ao de algumas empresas, se é mesmo necessário corroborar com algumas causas e alguns métodos. Sinto muitíssimo por gente/grupo que te medo da mudança.

Eu tive coragem de mudar, cara. Não tenham medo, mudem também.

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Pra entender:
http://www.urucum.org/narua/manifestantes-protestam-contra-incoerencias-da-agencia-da-boa-noticia/

http://soycontragandhimas.tumblr.com/post/101495833067/contradicoes-e-contradicoes

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