Zelota

21 de janeiro de 2015

Por Francisco Bosco
O GLOBO




Os encantos do livro que apresenta um Jesus Cristo revolucionário, distante do pacifista do Novo Testamento

De férias na Bahia, fui passear com minha mulher na praia, e ela apontou um ponto muito distante aonde queria ir. Preguiçoso comme il faut, comecei a andar meio contrariado, mas fui falando sobre um livro que estava lendo e, não sei quanto tempo depois, chegamos ao ponto distante, sem que eu tivesse percebido o esforço. O milagre da multiplicação das pernas foi operado pelo livro, uma obra-prima de erudição combinada com leveza e narrativa mesmerizante. “Zelota: a vida e a época de Jesus de Nazaré”, do iraniano formado em Harvard Reza Aslam, é um desses raros livros capazes de conciliar vasta popularidade (foi best-seller número 1 do “New York Times” em 2013) com impacto cultural profundo.

O impacto deve-se à tese do livro: a de que, diferentemente da imagem do Jesus Cristo no Novo Testamento (um pastor pacifista, devotado aos assuntos transcendentais), o Jesus histórico, Jesus de Nazaré, teria sido um líder revolucionário, mais um numa longa tradição de messias cuja tarefa era a de restaurar o reino de Deus na Terra Santa. Em outras palavras, livrar a milenar Jerusalém do domínio romano. Com efeito, Jesus de Nazaré foi crucificado pelo crime de sedição (mais grave crime para o Império Romano, pois era uma declaração de guerra a Roma), e, no títulus que lhe encimava a cabeça na cruz, estava escrito: REI DOS JUDEUS. Não acompanhei a recepção do livro nos EUA, mas não é difícil imaginar a ameaça sentida pela direita radical cristã diante de um Jesus histórico revolucionário, líder, como outros, de revoltas populares em que o fervor religioso era inseparável da insurreição política.

O feito de Reza Aslam é notável dada a notória dificuldade de se reconstituir o Jesus histórico. Praticamente não há fontes históricas sobre o nazareno. E o Novo Testamento trata apenas, por definição, do personagem Jesus Cristo. O método de Aslam consiste em examinar com o maior detalhe possível o contexto político, religioso e social da Palestina dos séculos 1 a.C. e 2 d.C. (pleno de documentos históricos), para que “então, de certa forma, sua biografia se escreva por si própria”.

E o que emerge dessa erudição histórica é um território politicamente instável, onde o jugo romano enfrentava uma série de revoltas populares, precariamente armadas diante do maior Império que o mundo já conheceu, mas mobilizadas por um fervor religioso incompreensível para os pagãos. A esse fervor, chamava-se zelo. A seus praticantes, zelotas. Daí Aslam situar o Jesus histórico no contexto político-espiritual de um povo judeu que não se reconhecia servo de nenhum homem, nenhum povo, somente de Deus. Com a consequência lógica de não reconhecer o domínio romano e engajar-se em revoltas para liberar-se dele.

Há uma conhecida passagem nos evangelhos reveladora sobre a dimensão revolucionária do Jesus histórico. Após invadir o Templo e expulsar os comerciantes, Jesus é interrogado pelas autoridades: “Diz-nos: é lícito pagar o tributo a César ou não?”. A pergunta é capciosa. Ela pretende descobrir as implicações políticas do messias. Se Jesus recusar o pagamento a César, se revelará um zelota, condenável pelo crime capital de sedição. A resposta do nazareno é um primor de coragem e lógica. “Mostre-me um denário” (a moeda local), ele pede ao guarda. “De quem é esta imagem e esta inscrição?” “É de César”, respondem as autoridades. “Então devolvei a César a propriedade que pertence a César, e devolvei a Deus a propriedade que pertence a Deus.” Ora, a propriedade que pertence a Deus é a terra. Jesus expulsava assim Roma da Terra Santa dos judeus. Era um zelota (e alguns dias depois seria capturado no Monte das Oliveiras e crucificado).

Que essa passagem tenha sido interpretada por séculos de estudos bíblicos como uma declaração de zelo exclusivo pela transcendência, isso nos leva ao cerne da hipótese de Aslam. Em 66 d.C., os revoltosos judeus conseguem assassinar a guarda romana do Templo, liberando Jerusalém e diversos territórios da Palestina. Cumpria-se a profecia de Davi. A Terra Santa voltava a ser o reino de Deus. Mas o Império logo voltaria para reconquistar as terras, e mobilizado por uma vingança sem precedentes. Dezenas de milhares de judeus, homens, mulheres e crianças, foram assassinados, torturados e os poucos sobreviventes expulsos, acorrentados, para fora da cidade. Jerusalém foi destruída até que não sobrassem vestígios do que foi um dia. O trauma inconcebível é que teria dado origem ao Jesus Cristo pacifista, afastado dos interesses políticos, expurgado da imagem revolucionária. E não apenas o trauma, mas também o medo de que o Império romano punisse a tentativa de formação de um religião ainda impregnada de suas origens revoltosas.

O resto é mito. E história.

 
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