Os últimos serão os primeiros

9 de junho de 2015

Chegou o dia.
Vimos a Glória do Filho do Homem, o espetáculo de luzes que os anjos proporcionaram a todos, mundo afora, em sua descida foi algo indescritível.
Agora, vemos as pessoas se acotovelando na planície. O engraçado é que, diante de mim, vejo muita gente vestindo ternos finos e bonitos, sorrisos nervosos nos lábios, conversando animada e nervosamente. Muita zoada vem dessa planície diante de mim. A uns 50 metros, a minha esquerda, um grupinho em êxtase celebra falando línguas estranhas. Adiante, outro grupo puxa um cântico antigo, daqueles que cortam a alma em duas. Um grupo mais significativo, talvez a uns mil metros de onde estou, puxa palavras de ordem do tipo “o Mundo é de Jesus!”.
Sinto falta do resto da população, ao menos dessa cidade. Nas sombras das janelas dos prédios perto de onde estamos vejo que muitos choram. Parecem ter medo. De vez em quando, gritos de desespero vêm da rua ali perto. Os crentes perto de mim, riem nervosos.
Podemos ver, a uns 20 quilômetros de onde estamos, o Trono.
Sinto-me confuso porque não sei ao certo o que vai acontecer.
Nos becos, nos bares, até no Beco da Lama, ali perto de onde foi minha casa, gente ainda bebe, ainda fuma, ainda toca samba. Nervosamente, ainda se alegra. Ninguém, ao certo, sabe o que vai acontecer.
De repente, ouvimos um som muito forte reverberando no ambiente. Uma mão gigantesca apareceu sobre as casas, prédios e ruas. Uma luz brilhou iluminando o interior das casas, permitindo que víssemos aqueles que, escondidos, choravam amendrontados.
Retumbante como um trovão, ouvimos a voz do Senhor. Os nossos corpos estremeceram da cabeça aos pés. Uma lágrima correu dos meus olhos. “‘Venham, benditos de meu Pai! Recebam como herança o Reino que lhes foi preparado desde a criação do mundo”, ouvimos o Senhor falar.
Na planície em que estávamos, a primeira reação parecia a festa de um gol do Brasil em uma Copa do Mundo. Os gritos de prazer e as línguas estranhas se multiplicaram.
Até que vimos uma fila que saia do bar mais próximo de onde estávamos. Das casas mais próximas e dos prédios em frente também desciam pessoas. Da favela a poucos quilômetros saia uma multidão de prostitutas, crianças e adolescentes infratores, bêbados e drogados.
Em poucos minutos, a festa da turba de crentes que se espalhavam à minha volta foi se silenciando e, agora, ouvíamos um choro baixinho. Em minutos, o silêncio na planície se tornou tão absoluto que éramos capazes de ouvir o respirar, ofegante, uns dos outros.
De repente, em um trio elétrico em frente vi um famoso pastor deputado discutindo com outra liderança, quase se agredindo. Ouvia-se claramente sua voz perguntando: “por quê? Por quê?”.
A essa altura, aquela fila de rejeitados já chegava no Trono. À frente, salvo engano, via aquela travesti que posou crucificada em São Paulo.
No fim da fila, usando trajes surrados de pano, parece que iam Abraão, Isaque, Jacó, Jeremias, Isaías e dezenas de outros profetas. Fechando o grupo, um homem fedido, que comia um gafanhoto enquanto caminhava na direção do Templo.
Pude ver a travesti, então, perguntando ao Filho do Homem: “Nós, Senhor? Por quê?” A resposta foi soprada em seus ouvidos e nós, à distância, ficamos aflitos por não entender o que estava acontecendo.
Quase três horas depois, a multidão na planície continuava chorando em desespero. Alguns puxavam seus cabelos, outros feriam-se com chicotes. Muitos tentavam linchar os pastores e sacerdotes que ainda não haviam corrido para se esconder.
De repente, um trovão ensurdecedor explodiu no ar." ‘Malditos, apartem-se de mim para o fogo eterno, preparado para o diabo e os seus anjos.
Pois eu tive fome, e vocês não me deram de comer; tive sede, e nada me deram para beber;
fui estrangeiro, e vocês não me acolheram; necessitei de roupas, e vocês não me vestiram; estive enfermo e preso, e vocês não me visitaram’.”
Um pastor famoso pegou o microfone do trio à minha frente: “Falso Deus! Ídolo! Não se enganem, irmãos, não é Jesus que está ali! É o próprio Satanás! Jesus não receberia essas prostitutas, bêbados, vagabundos no céu! Aquele travesti, aquela abominação não pode ser salva! A Bíblia diz que ele não pode herdar o Reino de Deus! A Bíblia diz que ele é uma abominação porque Deus fez homem e mulher. A família! A família! Esses viados, essas bichas, esses drogados não podem ser salvos! Esse cara ali, eu arrebento, é o diabo, não é Jesus! Vamos orar, irmãos, para que não caiamos em tentação! Isso é uma tentação do Anticristo para que a gente negue a nossa fé! Ali está o Anticristo, para nos enganar!”
Nesse instante, um novo ânimo renovou parte dos que estavam em desespero. Uns poucos se tocaram da bravata do líder e sua dor se multiplicou porque perceberam quanto se afastaram do Senhor ao seguir aquele falso profeta.
A fila começou a andar, puxada pelo trio elétrico. Lia-se, na lateral do trio, uma faixa com os dizeres: “Marcha para Jesus”. No entanto, o que se via é que o trio os conduzia ao inferno.
A multidão agora chorava em altos brados. “Por quê? Por quê?”, perguntavam. "Senhor, quando te vimos com fome ou com sede ou estrangeiro ou necessitado de roupas ou enfermo ou preso, e não te ajudamos?”.
O Filho do Homem respondeu: "O que vocês deixaram de fazer a alguns destes mais pequeninos, também a mim deixaram de fazê-lo”.
"Que pequeninos? Que pequeninos?”, gritavam desesperados. “Onde vocês estavam quando atropelavam as travestis, linchavam os homossexuais, violentavam os adolescentes infratores?”, perguntou o Filho do Homem. “Por que, em vez de ajudar os meus pequeninos, vocês fizeram campanha contra os direitos deles? Por que vocês oraram para que mais crianças e adolescentes fossem mortos ou presos?”, completou.
Nesse instante, uma multidão semelhante a uma Parada do Orgulho Gay se aproximou da planicie, vindos dos quatro cantos e se dirigiam para o lugar onde entraram os profetas e os demais que haviam sido chamados antes. Era possível ouvir suas canções e sua festa lá dentro, celebrando as bodas do Cordeiro.
Foi nessa hora que, num último ato desesperado, o pastor deputado e outro pastor que falara do trio correram na direção do Trono. "Senhor, abre pra gente! Por favor! Nós ouvimos o que o Senhor ensinava e ensinamos o que o Senhor mandava! Abre, Senhor! Por favor! Celebramos a Ceia do Senhor, batizamos, profetizamos, curamos, expulsamos demônios em Teu nome!”, gritou o pastor deputado.
Mas o Filho do Homem respondeu, suscinto: "Não os conheço, nem sei de onde são vocês. Afastem-se de mim, todos vocês, que praticam o mal!”
E completou, cantando, acompanhando a música que agitava a turma que celebrava o Casamento já dentro da festa:

“Go on, now go, walk out the door
Just turn around now, cause you're not welcome anymore
Weren't you the one who tried to hurt me with goodbye,
Do you think I'd crumble,
Do you think I'd lay down and die,
Oh no not I, I will survive,
For as long as I know how to love
I know I'll stay alive,
I've got all my life to live;
I've got all my love to give,
And I'll survive, I will survive”

E, em um flash, eles e os religiosos ao nosso redor sumiram de diante dos nossos olhos. A música de fundo, então, vinda do Casamento, aumentou. Era Gloria Gaynor que animava a festa.

(ficção baseada em Mateus 25:31-46 e Lucas 13:23-30)

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