Quase meio século atrás, o censor trouxe as trevas

19 de abril de 2013


Por Lúcio Flávio Pinto
No site da ADITAL

Eu ainda não sabia quem eu era, mas de uma coisa já sabia: era getulista.

Getúlio Dorneles Vargas esteve por duas vezes em Santarém, onde eu nasci. O fato seria inusitado ainda hoje. Era raríssimo para os padrões da política brasileira na época das visitas.

A primeira foi em 1940, quando ele era o ditador do Estado Novo, instaurado três anos antes através de um golpe de Estado que se sustentou nas forças armadas. O presidente passou rápido pela cidade para pernoitar em Belterra, a 35 quilômetros da sede municipal.

Belterra foi a segunda sede montada pelo milionário americano Henry Ford (a primeira foi Fordlândia, rio Tapájós acima 230 quilômetros) para o fracassado projeto de produzir borracha na região. A visita foi em outubro de 1940. Eu ainda levaria nove anos para vir ao mundo e meu pai, Elias Pinto, filho de imigrantes nordestinos tangidos pela seca e atraídos pela mesma borracha que fascinava Ford, ia fazer 15.

Não sei se papai acompanhou a visita. É bem provável que o tenha feito. Era de uma curiosidade absoluta e de grande precocidade. Autodidata, não cursou mais do que o terceiro ano do antigo curso primário, mas lia muito. Logo se tornaria presidente da Congregação Mariana, professor de inglês, locutor de rádio e editor de jornal.

A segunda visita de Getúlio Vargas foi em agosto de 1950, um mês antes de eu completar meu primeiro ano de vida. Santarém foi uma das 77 cidades incluídas no roteiro da sua campanha. O ex-ditador queria voltar ao poder. Só que agora através de eleições gerais e diretas, graças a um novo interregno de democracia no Brasil, sempre interrompida por golpes militares.

A "Pérola do Tapajós” ficou entre as paradas da caravana do PTB em Marabá, Manaus e Belém. A Amazônia teria direito a mais de 5% da agenda de Vargas, participação maior do que a que tinha na população brasileira e na economia nacional. Prova da importância que o político gaúcho dava àquela região, situada no outro extremo da sua terra natal.

O ilustre visitante foi recebido prefeito Aderbal Caetano Corrêa, de uma das mais tradicionais famílias mocorongas, com um barão pelo meio da genealogia. Como era de praxe, o "seu Babá”, como era mais conhecido, designou o secretário municipal para falar em seu nome. Papai já era orador brilhante, o oposto do seu chefe, tímido e pouco dado a locuções públicas.

O candidato a presidente ficou bem impressionado pela saudação. Quando papai a concluiu, foi chamado ao lado e recebeu um cartão de Getúlio. Se ele se elegesse, queria dar seu apoio para a instalação de uma fábrica em Santarém. Seria a maior do interior da Amazônia, para beneficiar a juta. A fibra resistente foi trazida pelos imigrantes japoneses e plantada com sucesso na várzea amazônica.

Getúlio eleito e empossado, papai escreveu ao novo presidente, juntando o cartão impresso, com a anotação manuscrita. O presidente não só respondeu: marcou logo uma audiência, para março de 1951, que concedeu no Palácio Rio Negro, em Petrópolis. Depois de ouvir com atenção, Getúlio se virou para os auxiliares, que estavam ao seu lado, e autorizou um financiamento do Banco do Brasil para que o maquinário da nova fábrica de tecelagem fosse todo importado. Em dezembro de 1951, o primeiro lote das máquinas deixou o Japão a bordo do navio Africa-Maru.

Não demorou para papai ter uma segunda reunião com o presidente Vargas, em 22 de setembro de 1951, um dia antes do meu 2º aniversário. Dessa vez foi no Palácio do Catete, local de trabalho e residência do presidente, que percorri várias vezes quando morei no Rio e nas minhas visitas à antiga capital federal.

Com papai foram Kotaro Tuji e Tsukasa Uyetsuka, os líderes da produção de juta. Assim foram arrematadas as providências para a n Companhia de Fiação e Tecelagem de Juta de Santarém (Tecejuta), que nasceu –ainda que apenas no papel– em 10 de novembro de 1951, com um capital de 350 mil dólares e a promessa de um acréscimo de mais 500 mil dólares, que deveria ser suprido por financiadores japoneses. A pedra fundamental da fábrica foi lançada em 7 de dezembro de 1952.

Todo empenho foi feito para que a inauguração acontecesse antes do termino do mandato do presidente. Mas um mês e meio antes que Getúlio pudesse passar a faixa ao seu sucessor, que devia também ser eleito democraticamente, como ele o fora, em agosto de 1954 o presidente se suicidou com um certeiro tiro no peito.

Papai tinha consciência de que o desaparecimento de Vargas também atingia com risco mortal o projeto da Tecejuta. Não hesitou em pegar um avião assim que recebeu a notícia. Junto com mamãe, foi para o Rio de Janeiro e daí para Porto Alegre, continuando até a fronteiriça São Borja, onde o maior dos seus filhos foi sepultado. Papai ficou bem perto de onde fizeram suas orações fúnebres o mineiro Tancredo Neves e o gaúcho Osvaldo Aranha, dois políticos que realmente amaram Vargas e tiveram comportamento másculo na crise,

Na volta, papai parou de novo na capital federal, Trouxe consigo um pequeno disco, que vendia como água, mas que nunca mais encontrei (alguém não podia prensá-lo de novo?). O compacto continha a gravação da famosa carta testamento, divulgada logo em seguida ao suicídio. Ouvi tanto o disquinho que a decorei. Surpreso e maravilhado com a minha declamação, que acompanhava a imitação do falar gaúcho (com o "l” mais linguodental do país), papai passou a me levar às suas rodas de político, onde me exibia orgulhoso. Não foram poucas as lágrimas derramadas nessas tertúlias na provinciana Santarém, onde todos se conheciam e nem havia os muros da capital, mera figura decorativa diante dafofoquice (ou fofoqueria?) local.

Será que minhas apresentações ajudaram de alguma forma o desempenho do meu pai, o líder do PTB no Baixo Amazonas (que ele tentaria transformar em Estado)? Elias Ribeiro Pinto foi o sexto deputado estadual mais votado, na eleição de 1954, o campeão de votos do ainda modesto PTB paraense, liderado pelo simpático Américo Silva (assassinado barbaramente por um companheiro de garçonièreanos depois) Era impossível saber, mas o vírus da política estava definitivamente inoculado na minha veia.

Talvez como efeito da minha observação atenta e crítica do que testemunhava (em casa, nas ruas, em viagens), nunca me passou pela imaginação disputar um mandato eletivo. Mas acompanhava com fascínio as conversas e discursos. Daí à militância foi um passo, pelo qual papai tanto batalhou (empenho que aplicaria às tentativas de conversão dos meus outros cinco irmãos homens), inutilmente.

Na campanha eleitoral de 1960, sai pelas ruas de Belém a distribuir a espada do marechal Lott, ex-ministro da guerra, candidato do PTB e do PSD, os extremos de duas faces do populismo (o de massa e o de gabinete; um tendendo à demagogia; o outro, ao golpe).

Recebia várias caixinhas daquele prendedor de lapela com a espada do "soldado absoluto” Henrique Duffles Teixeira Lott pintada de dourado. Quando encontrava pelo caminho um moleque espalhando a vassoura com a qual Jânio Quadros dizia que ia varrer a corrupção do Brasil, o confronto podia degenerar no nada democrático desforço físico.

JQ ganhou, com a maior proporção de votos já registrada no Brasil. Mas João Belchior Marques Goulart, o companheiro de chapa do marechal, que era um respeitável (com perdão da metáfora) macaco em loja de louça eleitoral, se elegeu vice-presidente (as eleições para presidente e vice não eram casadas nessa época). Papai era amigo de Jango. E eu segui seu caminho.

Acabei bem perto do palanque a partir do qual 18 pessoas discursariam no "comício da Central” do Brasil, a estação ferroviária do Rio de Janeiro, naquela fatídica sexta-feira, 13 de março. Por conta da superstição ou da lucidez, muita gente tinha pedido ao presidente que não fosse à concentração (de 200 mil pessoas, na versão oficial). Devia mandar representante. O que devia ter feito em outros momentos semelhantes daquela saison shakespeariana, com todos os personagens de tragédias, dramas, e comédias da maior dramaturgia humana.

Mas Jango era fiel aos amigos — e foi sempre. Duas semanas depois era deposto por um golpe militar que agora completa 49 anos e em 2014 chegará ao seu meio século, uma data para não esquecer — nem desperdiçar. Jango continuou leal aos seus milhares de amigos, mas deixou milhões de cidadãos ao relento, novamente vítimas de orfandade política. Esta, maior do que a anterior, na qual o lunático professor matogrossense-paranaense-paulista (pelo seu sotaque, jamais se descobriria sua procedência) J. Quadros lhes impusera três anos antes.

Coisa de lunáticos matizados. Diz a crônica que os generais (de três estrelas) Carlos Luís Guedes e (de duas estrelas) Olympio Mourão Filho colocaram na estrada as tropas do Exército em Minas Gerais antes de autorização do chefe do estado-maior da conspiração, o marechal (e futuro presidente biônico) Castello Branco, para aproveitar a lua cheia de 31 de março de 1964, esplendorosa nos céus antes de começar a minguar um dia depois. Há os que acreditam em reconstituição histórica mais tendente à mentalidade conspirativa: a antecipação do golpe foi para evitar o inconveniente 1º de abril, com sua ameaça de macular o grande dia com a sempiterna irreverência nacional.

A história é feita de estruturas, mas quem as arrasta são seres humanos determinados, singulares, específicos, como alertou Bertolt Brecht num poema famoso, que procurava trazer um pouco da luz dos holofotes para os outros personagens do enredo, não apenas os ditos heróis.

Guedes e Mourão também eram da genealogia lunática brasileira, que sempre deixou sua marca nos anais pátrios. Sugestivamente, nenhum dos dois tem uma biografia. Pensei em escrever uma crônica jornalística a respeito deles, alinhavada com histórias humanas, de carne e osso. Mais um dos projetos que me acompanhará à tumba.

Depois de mais de cinco horas ao lado do palanque, entre a estação ferroviária que homenageou o imperador Pedro II e a sede do ministério da guerra, que o apoiou por meio século, zumbiam no ouvido os discursos mais inflamados: do carbonário Leonel Brizola, o deputado federal mais votado (na Guanabara e não no seu Rio Grande do Sul) dois anos antes, e o pizzaiolo José Serra, presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), hoje um tucano sem jaça. Mas a melhor memória era a da primeira dama, Tereza Goulart.

Lavávamos a alma (e não só a alma, aliás) repetindo o bordão: é mais bonita do que Jacqueline Kennedy, a mulher de John Fitzgerald Kennedy, o glamouroso presidente dos Estados Unidos. E era. Foi a primeira primeira-dama pela qual rapazes de todo país se apaixonaram. E, como se veio a saber depois, ela não era só estampa: tinha fibra entre suas curvas e inteligência entre as delicadas orelhas.

Não vi a musa quando acompanhei papai à Granja do Torto, onde Jango preferira morar. Fiquei numa sala, enquanto conversavam no gabinete. Revia aquela paisagem distorcida que vira pela primeira vez na inauguração, quatro anos antes, na primeira parada da Caravana da Integração Nacional, 14 (ou 16?) jipes que saíram de Belém e foram levar o barro do sertão até a fímbria de areia alva de Copacabana, para a incredulidade dos seus moradores, muitos dos quais jamais colocaram seus pés além do túnel novo.

Papai, que em 1960 era um dos "planejadores” da SPVEA (antecessora da Sudam), especialidade nova no mundo profissional da região, saiu preocupado do encontro. No Viscount (turbo hélice que foi o primeiro avião de visão panorâmica, com a janela oval para os passageiros poderem ver bem "lá fora”) da Vasp, simpaticíssima empresa de aviação do governo de São Paulo, celebrizada por Adhemar de Barros (da qual me tornei "comandante honorário”, com direito a diploma e a inspeção na cabine, durante voo do Rio para São Paulo, em 1960), desabafou: "O presidente está perdido”.

A partir daí não desgrudei do meu rádio Transglobe Philco, cuja potência me permitia seguir pelas ondas hertzianas mundo afora (aos domingos, anotando os resultados dos jogos de futebol no planeta todo). De 30 para 31 de março não se dormiu em casa. Nem de 31 para o fatídico 1º de abril. Papai me cobrava boletins permanentes para repassar as novidades aos visitantes, que se revezavam na nossa casa, no largo da Trindade (hoje é a casa de recepções Alfajor).

Jango foi embora, para nunca mais voltar, o feioso marechal assumiu o poder e a vida voltou à sua rotina, como tem que ser (era a frase final de A hora dos ruminantes, a deslumbrante novela de José J. Veiga, que retrava os novos tempos através de uma parábola febril). Voltamos ao Movimento de Jovens da Paróquia da Trindade, a Roberto & Erasmo, Rita Pavone, Beatles e os Rolling Stones, etc. Mas havia mudanças. Precoce, a geração atingida pelo golpe amadureceu no tranco.

Em 1965 decidi fazer um programa de rádio. Comprei um horário na rádio Guajará, dos Lopo de Castro, aos domingos, logo depois da transmissão do futebol. Dalvino Flores, o inesquecível manoFlores, me entregava os microfones do estúdio durante meia hora. O programa começava com uma música, geralmente de protesto. Analisava a letra, com sua "mensagem social”. Depois dava algumas notícias. Por fim, uma entrevista.

Convidei Hamilton Guedes para ser meu primeiro companheiro (ele subiria ao poder com Jader Barbalho e a turma do CEPC, desabando depois, quando os escândalos começaram a pipocar; virei seu desafeto por conta da minha posição crítica ao governo). Ele ficou pouco. Depois foi a vez de Lenilson Sá Holanda, que foi ainda mais curto. E, por fim, Palmério Doria de Vasconcelos. Na sua primeira intervenção, Palmério colocou o "telefone” da emissora à disposição da bela entrevistada, uma miss. Foi impossível conter a risada. Dele, inclusive. Os tempos pareciam risonhos e francos.

Mas não eram mais. Os anos dourados de JK tinham passado. Não se podia mais contemplar a moça e a flor, sentir o sol amornar e dourar a pele, deixar o vento soprar em volta, ver o barquinho ir e vir. Certo domingo, ao voltar para casa, meu pai me esperava com expressão fechada, de preocupação. Fora procurado por um oficial da 8ª Região Militar (o coronel Décio Chamillot, o desequilibrado chefe da 2ª seção, o serviço secreto do Exército, como vim a apurar depois, inaugurando meu jornalismo investigativo antes de ser jornalista). O militar o advertira: sua empresa, a Cerâmica Marajó, de Benevides (adquirida do famosíssimo Nelson Souza, que revolucionara o Paissandu e fora engolido pela "revolução”), estava patrocinando um programa de rádio subversivo. Não podia continuar assim.

Naquele domingo papai ouviu pela primeira vez o programa do filho, que passara recentemente pelos 15 anos sem festa. Quando desligou, não tinha dúvida: o Gente Jovemia perder o patrocínio para que a cerâmica não perdesse seus fornos. Eu, que me tornara getulista antes de descobrir o mundo, descobria em casa, naquele momento, uma personagem que me acompanharia para sempre a partir daí, sem nunca ser convidada: a censura.

Começavam para valer os tempos sombrios projetados em 1964. Sua luz invertida, soturna, camufladora, persiste até hoje. É a memória mais forte daquilo que irrompeu 49 anos atrás.

0 comentários:

 
De olho no discurso © 2012 | Designed by Bubble Shooter , in collaboration with Reseller Hosting , Forum Jual Beli and Business Solutions