Intraespiritual

30 de novembro de 2014

A resenha a seguir é do meu amigo Nelson Doi Junior sobre o filme de Nolan, Interestelar. Não compartilho de todas as opiniões de Nelson, mas acredito que o texto é um dos melhores que li sobre o filme.

Interestelar

(Interstellar – 2014 – Christopher Nolan – Irmãos Nolan)

 

Interstellar é um comovente drama espacial que trata do equilíbrio e o desequilíbrio do Universo desde o interior de nossas almas até os confins de outras galáxias, ao gravitar em torno do relacionamento entre uma filha e seu pai, quando ele parte em missão espacial na busca de um planeta habitável para abrigar os remanescentes de uma Terra devastada. Seu roteiro é apressado apesar de longo e o auge do filme parece forçado, mal resolvido, é um tanto decepcionante. Apesar de tudo é rico em simbologias e boas intenções, tem suas viradas emocionantes, é sensível e com boas doses de ficção um tanto pseudocientífica

 

Interstellar é uma releitura profundamente humanizada e judaico cristã de 2001 Uma Odisseia no Espaço, dando como dicas de referência os robôs em forma de monólitos, computadores humanizados e a coisa toda de portais estelares ou buracos negros no clímax da história, como caminho para uma transcendência espiritual. Muito há de se criticar sobre erros de Física, mas o filme justamente não é sobre teoria científica e sim sobre Amor.

 

O caso é que 2001 é altamente frio e científico. Representa o marco da ficção científica no cinema em uma época marcada pelo realismo da linguagem e uma reminiscência das utopias cujas existentes definitivamente não se mostravam animadoras, resultando na Guerra Fria. Naquela época, questionava-se uma certa admiração e receio em relação a um futuro excessivamente técnico, ameaçado pelas intenções escusas de corporações e governos e a frieza do domínio dos computadores. Esses mesmos temas preocupantes retornam em vários outros filmes, especialmente Alien, mas também em Matrix, o recente Transcendence e mesmo em Star Wars, onde Anakin reluta em passar a vestir um suit e construir uma carreira bem sucedida numa corporation. Interstellar deseja marcar um novo ponto de virada, recriando 2001 mas dizendo exatamente o contrário da frieza utópica original: é hora de resgatar e colocar o Amor acima da tecnologia.

 

Cooper é um explorador, não um "care taker", seja do planeta como ele mesmo diz ou de seus filhos, como se subentende. Odeia ser fazendeiro. Seus pés de milho se erguem em busca do sol, uma estrela, mas que limitadamente jamais alcançam justamente porque estão presos à terra. Como seus filhos poderiam entender isso? Que o amor de um explorador é partir em busca da salvação deles.  

 

No filme os corpos celestes simbolizam emoções humanas. Sol representa a doação do carinho sem pedir nada em troca, a luz que desenvolve a vida, é o amor dos pais para seus filhos. Murphy é um pequeno planeta orbitando seu pai quando perde seu eixo e acaba tragada pela instabilidade emocional representada pelo buraco negro gerado no vazio deixado pela ausência dele. Buraco negro é a própria imagem da carência infantil que suga tudo com uma intensidade desesperada, como um bebê aleitado ou uma criança que desata a chorar esticando seus braços em busca dos pais quando se afastam fisicamente. A Terra devastada simboliza o coração devastado, que aos poucos perde o viço, como se sente Cooper. O primeiro planeta visitado é o de Miller, um oceano sem fim acossado por ondas gigantescas provocadas pelo empuxe gravitacional do buraco negro muito próximo. Tidal waves simbolizam a emoção feminina, ditada pelos ciclos hormonais, tsunamis representando forte desequilíbrio emocional. Oceano é uma imagem arquetípica da distância em relação ao ser amado. “My Bonnie lies over the ocean”. É o estado em que se encontram Cooper, Amelia e a filha Murphy, desconectados de suas contrapartes amorosas. A propósito a Lei de Murphy diz "tudo que pode acontecer irá acontecer", que pode tanto significar a necessidade de cautela em relação a todos os riscos possíveis ou pela oposta atitude de estar pronto e solto para encarar qualquer coisa com a qual o futuro nos confronte, o desprendimento ou desapego, uma duplicidade interpretativa que o filme propõe. Por uma dose de ciúme e ceticismo, Cooper rejeita ir ao planeta de Edmunds como sugerido por Amelia e se dirige ao planeta de Mann (referência a Mann, Homem, o espírito masculino?). O planeta de Mann é marcado por frieza, mentiras manipuladoras que ocultam as verdadeiras intenções e confrontação violenta, além de acessos de fúria representados por intempéries capazes de aniquilar a vida, outro mundo desequilibrado. Ou seja, tanto planetas com espírito feminino e planetas com espírito masculino não prosperam quando estão próximos ao estado de carência instável de um buraco negro, que por sua vez pode significar ainda a PAIXÃO CIUMENTA, que é possessiva e nada tem da troca mútua que o Amor realmente é. Buraco negro é a impossibilidade do amor e do respeito, porque só exige, não retribui, e é egocêntrico. Finalmente o planeta de Edmunds é o lugar acolhedor onde a vida pode recomeçar, um lugar onde o amor se reencontra, a vida floresce. Edmundo é nome saxão que significa o protetor dos bens, o protetor daquilo que realmente nos tem valor. O Rei Edmundo foi o protetor da Cristandade contra a invasão bárbara em seu reino. Foi o defensor do Amor.

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Supostos seres alienígenas muito superiores que "cuidam" dos seres humanos e "proveem" nossas necessidades, que na verdade são um tecno eufemismo para Deus, constroem um tesseract espaçotemporal, agravitacional, que protege o astronauta no buraco negro e lhe permite fechar o ciclo histórico, reavendo pai e filha. Madura, resolvida, se reencontrando na doação do amor aos seus filhos e netos, Murphy finalmente compreendeu a vocação de seu pai e o desprende a prosseguir e unir-se a Amelia. O gigantesco buraco negro das carências afetivas é encerrado.  Libera assim a própria consciência nacional dos norte-americanos a redirecionar subsídios bélicos à exploração espacial. "Não somos care takersda ordem mundial, somos exploradores espaciais". Curioso, como todos nós nascemos com uma atitude de buraco negro e à medida em que envelhecemos nos tornamos mais e mais como sóis, um ciclo oposto ao do corpo celeste. A paternidade parece fundamental, é o que nos muda de receptores a doadores. A história celebra portanto a família, o que se poderia esperar já que trata da perpetuação da espécie. Outra transformação ocorre com Cooper, que era arrogante e cínico em relação à capacidade lógica das mulheres e agora vê os erros de decisão que cometeu: ao duvidar que as mensagens cifradas eram em código Morse como sugeria sua filha e que o planeta de Edmunds era obviamente a escolha mais sensata para a segunda visita como Amelia sugeria. 

 

 

Não vejo gnosticismo na história, mas misticismo judaico-cristão. O Êxodo faz parte da tradição judaica, é o segundo livro da Torá/Antigo Testamento. E é fácil perceber que as pragas do Egito, que marcarão o início do êxodo, nada mais são que indícios de um desequilíbrio ecológico. Não são intervenção divina, antes um distanciamento do divino, da Natureza. Aposto que se lermos Exodus, encontraremos mais referências. O próprio Moisés é um filho abandonado. Seremos seres errantes, sem ter aonde voltar e, nessa jornada em busca do Planeta Prometido, somente podemos contar uns com os outros. Amor fraternal é tudo que nos resta, como uma força de atração forte que mantem espíritos coesos. Mas como Lázaro, precisaremos ressuscitar diferentes, renovados, iluminados, para as coisas darem certo. O interessante do filme, como ficção científica, é conseguir utilizar representações da astrofísica para falar de relações humanas e depois englobando a ecologia. Como o próprio papa Francisco afirmou, o consumismo é um desequilíbrio do Amor, uma carência afetiva.

 

Vale observar que o tal wormhole é um marco muito como névoas representam na linguagem cinematográfica. Névoa significa que tudo que está além dela é fantasia, mitológico, subconsciente. Como no caso de Rumblefish (O Selvagem da Motocicleta), onde o personagem de Mickey Rourke sempre surge envolto em fumaça ou névoa, simbolizando no caso a visão idólatra e mitificada que o irmão menor tem do irmão mais velho, ou a névoa na abertura de Shutter Island (Ilha do Medo), que simboliza a entrada no subconsciente, ou ainda as brumas de Avalon, vá lá, que representam a entrada em um mundo fantástico ou romântico (cumpre dizer que “mist” ou “misty” é a palavra mais usada em títulos de romances para secretárias da editora Harlequin, que é o que Mists of Avalon é, sugerindo na verdade “sonhos úmidos”, o wet dream das secretárias românticas). No filme, tudo que está além do wormhole é realismo fantástico, ele conduz na verdade não a outra galáxia, mas ao interior espiritual dos personagens. Intraspiritual, não Interstellar. Os planetas são fantásticos e o buraco negro também. Nuvem congelada, das duas uma: ou despenca (é um fenômeno meteorológico que os especialistas denominam "neve") ou a gravidade é tão baixa que o planeta não reteria atmosfera, ela se esvai no espaço. Millers Planet lembra Aquaend, o planeta prisão do quadrinho Incal, de Moebius e Jodorovski. Conhecemos outro wormhole famoso, o buraco de Alice no País das Maravilhas.

 

Insterstellar é, finalmente, uma grande homenagem a Einstein. Apesar de enxergar um mundo definido pela Matemática, Einstein era extremamente doce e carinhoso. É atribuída a ele a explicação, quando abordado por um leigo que não compreendia a Teoria da Relatividade: uma simples hora passada com a pessoa amada nos parece eterna. Uma mensagem repetida ao longo de todo o roteiro. O amor sobrepõe tempo e espaço e é o verdadeiro tecido que dá liga ao Universo.

 

Gravidade e Interstellar, basicamente, comunicam a mesma intenção, são filmes gêmeos, que de uma certa forma propõem o prosseguimento da espécie após a Terra, glorificam o ser humano como explorador, mas por outro lado questionam o escapismo do indivíduo.

 

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